Hoje, quando relia, por aqui, rabiscos
nos blocos de notas que se amontoam nas estantes e gavetas, deparei com estas
linhas escritas a lápis, como é meu hábito:
Enquanto não decido se escolho
as nuvens em teus olhos
ou as flores em tuas mãos
deixa que encontre entre
o brilho e a penumbra
o tom que mais convém
à finalização do poema
Que mais dizer se
Procurei o lápis, (na verdade, meio
lápis). Afiei-o muito e propus-me encontrar o tal tom para finalizar o poema.
Não o achei. É normal. Um meio poema esquecido nunca mais perdoa o abandono.
Esquece - disse comigo - Fica como está!
Porém, estas coisas da escrita têm os
seus caprichos e, por vezes, sem que se espere, entram em diálogo como forma de compensação pelo tempo e pela atenção que lhes dedicamos. Pode lá,
alguém que lê, sentir-se só!
Uns minutos depois do “fica como está!”,
tocaram à porta e entregaram-me o livro que eu comprara on-line, uns dias antes. Desembrulhei-o
e abri-o de imediato. Página 100. O que li, fez-me rir, numa primeira reação,
depois, fez-me pensar no modo incrível como as palavras, entidades com vontade
própria, independentes de qualquer sistema semiótico, nos "falam"
como se nos pertencessem, como se fossemos nós, pertença sua.
12 de Setembro
Decidi escrever este texto com o lápis
muito afiado. Porém de cada vez que roubo palavras à grafite, esta torna-se
densa e vejo-me obrigado a parar, sob pena de não conseguir cumprir o
objectivo.
O lápis, já de si, não é lá muito
cumprido. Na verdade, nem consigo segurá-lo bem entre os dedos. De duas em duas
palavras, vejo-me a interromper a escrita para o poder aguçar. A continuar
assim, pode muito bem dar-se o caso de, dentro de poucas palavras, já não ter
mais lápis pa
O agravo?! Menor o dele que o meu. A ele basta entrar na papelaria e pedir: arranje-me uma caixa de lápis de grafite, por favor - para que a sua escrita seja sempre fina e límpida, livre da negritude da ponta do lápis, controlada pela aguça, a tempos certos. Já eu, imaginem-me a entrar na mesma papelaria e a pedir: arranje-me uma caixa de versos (das pequenas) e uma borracha, por favor.
Lídia Borges (29/05/2026)
