
Voltas assim, serenamente,
Poesia
Como se dançasses descalça
Sobre o musgo do jardim.
Fada vestida
de véus feitos de seda e cetim.
Cuidas-me débil, Poesia?
Compadeces-te de mim
E não trazes ao poema
O grito dos que têm fome
A raiva dos que matam
A sede dos que secam
E outros males afins.
Não trazes ao poema
A água turva das poças
Os limos mortos, lodaçais
Onde se erguem cidades, imundices
Gentes tristes sem rumo, sem cais
Não trazes ao poema
As ciladas nocturnas simuladas
Em rendas e entremeios
Nem o uivo dos temporais
A povoar devaneios.
Se não tiveres para me dar,
Poesia
A estrela que te pedi
Ensina-me a tecer silêncios
Nas coisas ocas de ti.
Lídia Borges
