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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Voltas


Voltas assim, serenamente,
Poesia
Como se dançasses descalça
Sobre o musgo do jardim.
Fada vestida
de véus feitos de seda e cetim.

Cuidas-me débil, Poesia?
Compadeces-te de mim
E não trazes ao poema
O grito dos que têm fome
A raiva dos que matam
A sede dos que secam
E outros males afins.

Não trazes ao poema
A água turva das poças
Os limos mortos, lodaçais
Onde se erguem cidades, imundices
Gentes tristes sem rumo, sem cais

Não trazes ao poema
As ciladas nocturnas simuladas
Em rendas e entremeios
Nem o uivo dos temporais
A povoar devaneios.

Se não tiveres para me dar,
Poesia
A estrela que te pedi
Ensina-me a tecer silêncios
Nas coisas ocas de ti.

Lídia Borges

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Perde-se, assim, o azul


Perde-se, assim, o azul que as mãos não vedam
em rios aflitos de desenganos e limos mortos.
Perde-se assim o azul!

Só a memória sôfrega ainda o adia,
Lago sumido entre montanhas.
Espelho liquefeito na palidez da aurora,
Onde voam peixes translúcidos,
Reflexos inócuos da luz
que a noite ainda não bebeu.

Lídia Borges