sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Do Amor



O amor é uma fada nua que dança em pontas sobre a maciez do musgo, nos teus olhos.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Da Ilusão


Será esta a dor que o Poeta finge ter?
É dor que não chega a ser
E ainda assim
Não deixa de doer

Como pode acontecer
A saudade do que não aconteceu?
A luz do sol que não nasceu?
A carícia da brisa que não ocorreu?

Permitam-me voltar atrás
Repetir o meu olhar
Para que possa entender

E se ainda assim não abarcar
Deixem-me ao menos riscar
Como se faz num rascunho
Este pedaço de vida
A que de longe assisti
Como se não fosse a minha
Mas outra que então vivi

E foi nessa que aprendi
A verdade que o sonho tinha

Lídia Borges

domingo, 10 de outubro de 2010

Da Realidade

Que renda fez a tarde no jardim,
Que há cedros que parecem de enxoval?
Como é difícil ver o natural
Quando a hora não quer!
Ah! não digas que não ao que os teus olhos
Colham nos dias de irrealidade.
Tudo então é verdade,
Toda a rama parece
Um tecido que tece
A eternidade.

Miguel Torga, in 'Nihil Sibi'

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Meu último poema


Não quero que o meu último poema
seja triste como essas noites sem lua
ou como o céu melancólico
que abrigo dentro do peito.

Não quero que o meu último poema
seja feito desses ecos do nada
suspensos em palavras magoadas
que oscilam, aturdidas, no vento.

Meu último poema não poderá
atormentar o coração das rimas,
sufocar as palavras perplexas
no alvoroço da despedida.

Meu último poema
quero-o branco
como as asas de um anjo,
alegre como o canto das cigarras,
transparente como um rio
a desaguar no teu olhar...

Meu último poema... Um gracejo!
Uma rosa para te dar.

Lídia Borges

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Princípios


Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.


Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.


Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.

Nuno Júdice

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Regresso


Acordas de um sonho mal dormido
como quem regressa enfermo
de uma viagem de mil anos

Conheces agora todas as cidades
todos os abismos e desertos
na arquitectura do teu desconcerto

Voltas sem nada
e do que deixaste
já nada te pertence
Nenhum espelho reconhece
o outro de ti
na indefinição de um rosto
onde a luz esmorece
como estrela que se apaga
caída na areia junto do mar

Refazes ainda
o desenho dos passos
nas marcas do desalento
porque o teu coração
de pés feridos e descalços
não pára de caminhar

Lídia Borges

domingo, 3 de outubro de 2010

"Pequenices" (da Rita)


Cãozinho de Imaginação

Levava-o pela "trela"
E dizia-o pequenino
De pêlo liso e comprido
Muito, muito fofinho

Falava-lhe com ternura,
com meiguice, com carinho

Uma menina e o seu cão
Seria um lugar-comum
Não fosse na ponta da trela
Não haver cachorro algum

Lídia Borges