sábado, 23 de outubro de 2010

No país dos poemas tristes


Qualquer poema esquecido
precisa de uma réstia de sol
onde pousar a tristeza

Mas no país dos poemas tristes
a inércia dormente
deixou que roubassem o sol
E agora
os rios solidificam nos leitos
os animais são pedras
e as searas secam

Agora
no país dos poemas tristes
da sombra negra do céu
desprendem-se versos mortos
que os poetas recolhem
paulatinamente
para colocar entre as páginas brancas
de um livro por escrever

Talvez despertem um dia
ao som de Chopin
Fantasie-Impromptu, quem sabe?
Quando o sol for devolvido ao céu
e à poesia renascerem as asas

Lídia Borges

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Duplix


Chove Saudade // Inunda a floreira

De que nuvem pinga // Como num conta-gotas
Esta saudade fria? // Repleta de pranto
Ainda agora o sol brilhava // Só resta à floreira chorar

Lídia // Deia

Eis o resultado de uma parceria, muito gratificante, que fiz com a Deia do Rumo à Escrita.
Um duplix tem regras próprias e parece que eu violei uma, pois só depois de escrito soube que, nenhuma palavra do título pode constar no texto. Paciência! Errando também se aprende.
Gosto, sobretudo, de verificar que a leitura do texto pode ser feita, tanto na horizontal como na vertical.
A imagem foi recolhida pela Deia. Perfeita para mim que adoro janelas floridas onde a saudade cresce em vasos.

Obrigada, Deia!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Perde-se, assim, o azul


Perde-se, assim, o azul que as mãos não vedam
em rios aflitos de desenganos e limos mortos.
Perde-se assim o azul!

Só a memória sôfrega ainda o adia,
Lago sumido entre montanhas.
Espelho liquefeito na palidez da aurora,
Onde voam peixes translúcidos,
Reflexos inócuos da luz
que a noite ainda não bebeu.

Lídia Borges