quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Confissão


Não tenho de escrever
Não preciso deste papel branco
Desta caneta inconformada

Careço tão só de me alongar
Defronte do meu espelho partido
Para que me veja autêntica e inteira
Na ilusão dos estilhaços

É bom que saibas que nenhuma lágrima
Conseguiu ainda
macular a suavidade do meu olhar
E nenhum lírio sucumbiu
À mingua da tua água

É bom que saibas que se escrevo
É porque o momento me é dócil
E não vacilo
Segura
Como um rio que segue certo do mar
Sem que ninguém um dia
Lhe houvesse traçado o destino.

Lídia Borges

terça-feira, 2 de novembro de 2010

flor morta




Pétalas pálidas
repousam, doloridas, sobre a mesa.

Quem vos negou a escassa água de um jarro?



Lídia Borges

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Vejo-te


Vejo-te.
Feição sombra em contra-luz
E, na obscuridade dos contornos,
Não sei para onde olhas
Sabendo, porém, que me vês.

E há uma paz rosada
Nesta ciência de nos vermos
Sem nos olharmos.

Os navios que cruzam
A imensidão entre nós
Ignoram portos e enseadas.
Navegam sem rumo,
Navegam apenas,
Sob o comando impreciso
Dos ventos e das marés
Que dormem nas nossas mãos.

Lídia Borges