Escrevo, como se vê.
Por vezes invento. Um dia inventei-te.
Era primavera,
e, talvez por ser primavera,
saíste-me tão perfeito
que temi olhar-te de frente,
não fosse afogar-me, logo ali.
Adiei-te uma vez, outra, outra...
Queria encontrar uma imagem
que te servisse. Não existia.
Mas tu existias
porque eu te mencionei.
E tudo o que é mencionado, existe,
como bem se sabe.
Porém a tua existência
não coincidia com a espessura do papel
onde te fiz poema
e acabei a dilacerar-te o coração
que eu própria te havia dado. Amorosamente.
Foi doloroso romper um coração tão puro,
de papel.
Mentiria, se pudesse, para dizer
que te amei perdidamente,
mas a mentira só existe sobre o que se conhece.
E eu, como já declarei,
nunca cheguei a olhar-te de frente,
não fosse afogar-me, logo ali.
(Pintura: Jeff Larson)
