Há uns meses, numa rede social, fui parar ao "sítio" de uma ex-aluna e, seguindo-lhe os passos, acabei por encontrar, através dela, uma outra da mesma turma, esta de nome Celina que nunca mais vi e, já lá vão mais de vinte anos, desde que a recebi no primeiro ano de escolaridade, juntamente com outras e outros pequenitos. Pela sua página, fiquei a saber que está recentemente a terminar o curso de medicina, na Covilhã, o que me deixou na cara e na alma uma indisfarçável satisfação.
Detive-me a tentar
reconhecer a criança de ontem naquele rosto sorridente de rapariga bonita de hoje, vestindo traje académico.
Aos sete anos
passava os sábados a ajudar o pai nas obras. Quando o contou à turma, provocou uma explosão de risos que ela, claramente, não entendeu. Perguntei então que
tarefas fazia nessas idas com o pai para o trabalho. - "Acarreto massa
no balde, chego os tijolos ao pai, às vezes
aliso o cimento com a pá…"
Nunca a
esqueci. O pai aproveitava todos os biscates
que lhe apareciam fora das horas normais de trabalho e a mãe, empregada num restaurante, não tinha direito a fins de semana, pelo que a criança acompanhava realmente o pai e gostava de o "ajudar". Tinha o ar mais
franzino do mundo, a pele muito branca, os olhos pequeninos de um azul escuro,
o cabelo alourado e liso e um ar compenetrado como se estivesse sempre a pensar
em coisas maiores do que ela. Usava muito frequentemente um boné com a pala para trás que
tirava da cabeça logo que me via chegar.
- O que queres
ser quando fores grande, Celina? A resposta vinha rápida e decidida: quero ser
trolha, como o meu pai. Durante os quatro anos em que trabalhei com o grupo, a Celina nem por uma só vez manifestou a vontade de ser, no futuro, outra coisa que não trolha, "como o pai"...
Hoje tenho-me lembrado muito da Celina.
(pintura: Jeff Larson)
