Trazia nos olhos passarinhos verdes
luas de todas as faces
nuvens de janeiro repletas
de frio
estrelas de oiro, de hidrogénio,
de hélio e até de papel
com que ponteava o céu, dia e noite.
Não era ainda um poeta.
Sabia-o.
Fazia-lhe falta o chão.
Até que um dia entrou nu no
rio,
Doeram-lhe os pés trôpegos
nas rochas.
Correntes, remoinhos e precipícios
arderam-lhe no corpo em
ferida
remos quebrados os braços,
os olhos rasos de descrença.
Os juncos, as represas, as
armadilhas,
partiram-lhe o coração
aguçaram-lhe a mente.
Um dia, escolheu uma
pedra, a maior,
transportou-a até à margem
apertada contra o peito.
Inspirou profundamente
E arremessou-a com raiva
contra o medo e a servidão.
contra o medo e a servidão.
Estava escrito o primeiro
poema
de um novo poeta.
(Reeditado)
(Tiziano Vecellio 1548-1549, Sisifo)
