sábado, 13 de abril de 2019

Chão



Trazia nos olhos passarinhos verdes
e outras miragens ingénuas:
luas de todas as faces
nuvens de janeiro repletas de frio
estrelas de oiro, de hidrogénio,
de hélio e até de papel
com que ponteava o céu, dia e noite.

Não era ainda um poeta. Sabia-o.
Fazia-lhe falta o chão.
Até que um dia entrou nu no rio,
Doeram-lhe os pés trôpegos nas rochas.
Correntes, remoinhos e precipícios
arderam-lhe no corpo em ferida
remos quebrados os braços,
os olhos rasos de descrença.
Os juncos, as represas, as armadilhas,
partiram-lhe o coração
aguçaram-lhe a mente.

Um dia, escolheu uma pedra, a maior,
transportou-a até à margem
apertada contra o peito.
Inspirou profundamente
E arremessou-a com raiva
contra o medo e a servidão.

Estava escrito o primeiro poema
de um novo poeta.



(Reeditado)

 (Tiziano Vecellio 1548-1549, Sisifo)