
Hoje, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva - A música das palavras.
Falo de Sophia.
Conto que ela escrevia histórias para ler aos filhos pequenos. Conto que o fazia com uma entoação especial na voz. Conto que, um dia, um dos filhos, terminada a leitura, lhe perguntou - Porque leste com essa voz esquisita? E acrescentou - Podias fazer uma voz mais natural. Não pareces tu.
Leio pequenos excertos pré-selecionados de livros que tenho comigo: A Menina do Mar, O Rapaz de Bronze, A Fada Oriana, A Floresta, A Árvore, o Cavaleiro da Dinamarca. (Procuro a Poesia). Deixo que se manifestem, que troquem ideias, que coloquem questões...
Porque leste com essa voz? - pergunta um pequenito à minha direita. Só me ocorre sorrir, em agradecimento, mas lá vou dizendo que cada sílaba deve ser dita/ouvida como se fosse uma nota musical tirada de um piano bem afinado.
Sugiro a tarefa a partir de uma palavra do universo textual de Sophia, (cada um a sua), coloco um degrau aqui, outro ali e deixo que os subam por si mesmos.
No final da sessão, um dos participantes mais velhinhos, (9 anos), vem pedir-me um autógrafo num livro meu. Concordo, com a condição de me dar ele outro, no trabalho que acaba de ler em voz alta com a seguinte "nota prévia", proferida com toda a convicção: isto tem muito significado.
Palavra escolhida - Liberdade
A Liberdade é um cravo.
A Liberdade cheira a maçã.
A Liberdade sabe a bolo de chocolate.
A Liberdade é branca.
A Liberdade é uma marioneta
que se livrou dos fios.
A Liberdade é uma flauta.
Soa levemente
como um vento livre livre.
(Sem assinatura)
(Sophia de Mello Breyner Andresen com os filhos mais velhos
Foto: Fernando Lemos)