sexta-feira, 12 de abril de 2019

"Pescadores de palavras"


Hoje, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva - A música das palavras.


Falo de Sophia.
Conto que ela escrevia histórias para ler aos filhos pequenos. Conto que o fazia com uma entoação especial na voz.  Conto que, um dia, um dos filhos, terminada a leitura, lhe perguntou - Porque leste com essa voz esquisita? E acrescentou - Podias fazer uma voz mais natural. Não pareces tu.

Leio pequenos excertos pré-selecionados de  livros que tenho comigo: A Menina do Mar, O Rapaz de Bronze, A Fada Oriana, A Floresta, A Árvore, o Cavaleiro da Dinamarca. (Procuro a Poesia)Deixo que se manifestem, que troquem ideias, que coloquem questões...

Porque leste com essa voz? - pergunta um pequenito à minha direita. Só me ocorre sorrir, em agradecimento, mas lá vou dizendo que cada sílaba deve ser dita/ouvida como se fosse uma nota musical tirada de um piano bem afinado.

Sugiro a tarefa a partir de uma palavra do universo textual de Sophia, (cada um a sua), coloco um degrau aqui, outro ali e deixo que os subam por si mesmos.

No final da sessão, um dos participantes mais velhinhos, (9 anos), vem pedir-me um autógrafo num livro meu. Concordo, com a condição de me dar ele outro, no trabalho que acaba de ler em voz alta com a seguinte "nota prévia", proferida com toda a convicção: isto tem muito significado.

Palavra escolhida - Liberdade

A Liberdade é um cravo.
A Liberdade cheira a maçã.
A Liberdade sabe a bolo de chocolate.
A Liberdade é branca.
A Liberdade é uma marioneta 
que se livrou dos fios.
A Liberdade é uma flauta.
Soa levemente
como um vento livre livre.

(Sem assinatura)


(Sophia de Mello Breyner Andresen com os filhos mais velhos 
Foto: Fernando Lemos)