Deixar o coração solto, a deslizar
para o jardim do Mundo,
devagarinho,
devagarinho,
pela voz cristalina de uma criança
que lê.
que lê.
Não
podia deixar de ir, de responder afirmativamente ao amável convite que me foi dirigido
para estar presente na fase final do Concurso Nacional de Leitura.
Crianças
e jovens de todo o país rumaram a Braga, ao Altice Fórum Braga, mais
propriamente, neste sábado solarengo de Maio, para a grande festa da Leitura.
E
foi, de facto, uma festa digna de ser vivida. A alegria da juventude ao rubro, misturada
com a ansiedade encoberta daqueles que tinham de prestar provas: uma leitura
expressiva de uma parte do livro de escolha própria e uma argumentação a
propósito do lido.
Comecei
por apreciar, um pouco surpreendida, a ausência de barulho, (numa sala com
cerca de duzentas crianças e jovens, mais os acompanhantes, pais e professores),
durante as leituras e argumentações dos colegas, os calorosos aplausos, a
ausência de gritos espalhafatosos, de telemóveis, o modo efusivo como todos
saudaram os leitores distinguidos pelo júri porque aqui não houve em momento algum vencidos. Todos foram (fomos) vencedores.
Depois
dei comigo a desconfiar que estas “coisas” bonitas e raras são talvez “visões
ampliadas” dos meus olhos cansados do vulgar, do supérfluo, do fútil. Olhei em
volta, novamente. Não quero iludir-me. Mas, não. Percebo que a minha intuição
(poética!?) não se deixa vencer pelas forças da alienação e do engano. E, logo,
bem encostado ao meu ouvido, a voz-do-contra, baixinho: “não te esqueças de que
estes são os miúdos que leem, os que não são levados semana sim, semana sim,
aos estádios, aos centros comerciais. Estes são levados por mãos sábias e empenhadas, às
bibliotecas e livrarias, são levados até às portas do Sonho e lá deixados para
aprenderem o caminho da Consciência, do Pensamento (crítico), da Alegria de viver,
de Ser, em harmonia com a essência do mundo.
Regresso ao palco onde a Joana(?), concentrada na sua argumentação, questiona: pelos livros sonhamos, é verdade, mas de que serve sonhar se os sonhos não nos escorregarem pelos braços até às mãos e estas não lutarem para os transformar em matéria capaz de transformar o mundo? […]
Sorriem-se-me
as palavras, tão caladas e atentas, tão à beira do espanto e da Esperança.
Acordei,
hoje muito mais feliz. Fui votar, mais cedo do que é costume e fi-lo com uma
energia muito mais positiva. Até falei com os meus botões enquanto fazia a
cruzinha: isso, vota aí!... - disse eu para mim – E saiu-me a cruzinha mais perfeita e mais
afirmativa de sempre. Aquelas crianças, aqueles jovens deixaram ficar no meu
coração uma sensação boa, uma “fé” renovada no futuro. Acho que, afinal, o
mundo pode ter ainda uma hipótese de se transformar num lugar outro, melhor e
mais humano.
Acabo de ter conhecimento dos números
relativos aos participantes nas Eleições Europeias, em Portugal - Domingo, hora de
almoço - 11,6 % de votante.
E a voz-do-contra: nhã…nhã…nhã!...
Nhã..nhã… nhã…


