sexta-feira, 3 de maio de 2019

Poema 15

Foto: Jason deCaires Taylor

Coloca o fato de proteção
o capacete, as barbatanas,
o tubo e o bocal
para continuares a respirar

quando mergulhado no mar
alterado da linguagem.

Verás à entrada do poema,
um lirismo extasiado na voz do vento
roçando velas e mastros
em desvario.

Não te esqueças:
deves chamar ao barco, sonho,
crina, ao vento,
ave, ao coração
se o teu nasceu para voar.
Recolhe tudo o que te espanta
na gestação dos dedos.

Rompe a aridez das palavras
demasiado concretas. Despe-as devagar,
deixa que se signifiquem amplamente.
Dá-lhes a beber umas gotas de loucura,
e de ternura, uma mão bem cheia.
Toda a sede é distância
na porta entreaberta do poema.

Deixa que se escrevam por si, as palavras
na pele branca de uma folha de papel,
ébrias de tanta sobriedade.



Lídia Borges (2019), Garças, Poética Edições.