terça-feira, 14 de maio de 2019

Quaderna 4



O número 4 da Quaderna já saiu.
Estou a “vê-la”, vagarosamente. Interesso-me pela escrita translúcida, breve, pelo que dela transparece. Esta é uma publicação a favor da Poesia, da Literatura, da Arte, que se recusa cumprir os passos [tresmalhados] do mercado editorial do momento, em Portugal. Saberão, por certo, do que falo aqueles que amam os livros. Daí eu dizer que tenho muita sorte em receber esta simpática “publicação não periódica sem fins lucrativos” que  me vai aparecendo em casa. 
Hoje trago “Memorium”, a abrir este número da Quaderna. Um louvor, (deixem-me chamar-lhe assim), ao poeta que foi um dos fundadores da Revista Árvore (1951-1953), desaparecido em Junho de 2018,  Albano Martins.
O artigo - “A ocasião do silêncio” – assinado por VAV (Vergílio Alberto Vieira, na foto), expressa com clarividência um olhar sobre  o homem, a vida, a obra...

Transcrevo:

Falo de quem está para perder
A ocasião do silêncio, e assim se salva.

Vitorino Nemésio
(O Verbo e a Morte)
« […]
Decidido a dar continuidade a um ciclo de criação literária que, mergulhando as suas raízes na antiguidade clássica, optou por não fechar portas a um fundus electivo antecipador de experiências criativas e processos de escrita renovadores do fazer poético, nada mais justo reconhecer em que medida o contributo de Albano Martins – enquanto poeta, tradutor, e estudioso da literatura, a quem a docência conferiu, como diria George Steiner, o estatuto de “professor inspirado” capaz de “ensinar bem” e “ser cúmplice de possibilidades transcendentes” – ganhou foros de cidadania intelectual  ímpar, configurados à luz de uma atitude cultural  cuja mediação reverteu a favor do estabelecimento de valores éticos e ontológicos, equacionados e realizados no quadro de uma comunicação contrária à perda do primado da palavra face aos poderes da imagem e dos sistemas simbólicos.
[…] » VAV


         CIPRESTES

Desta varanda, onde, sopradas
pelo ar da noite, algumas
sonâmbulas estrelas ardem, olho
os teus ciprestes, altos
como colinas
de luz e cor. Olho-os
ao clarão
do luar entornado
nas pedras da calçada: fantasmas
dum serão magoado,
com “um peso no peito”
e uma “lágrima civil”
nos olhos deslumbrados.

                                                                                                    [p/ José Mouga]


(mais sobre a Quaderna aqui: https://searasdeversos.blogspot.com/2019/01/quaderna-literatura-y-arte.html