Estou a “vê-la”, vagarosamente. Interesso-me pela escrita translúcida, breve, pelo que dela transparece.
Esta é uma publicação a favor da Poesia, da Literatura, da Arte, que se recusa cumprir os passos [tresmalhados] do mercado editorial do momento, em Portugal. Saberão, por certo, do que falo aqueles que amam os livros. Daí
eu dizer que tenho muita sorte em receber esta simpática “publicação não
periódica sem fins lucrativos” que me vai aparecendo em casa.
Hoje
trago “Memorium”, a abrir este
número da Quaderna. Um louvor, (deixem-me chamar-lhe assim), ao poeta que foi um dos fundadores da Revista Árvore (1951-1953), desaparecido em Junho de 2018, Albano
Martins.
O artigo
- “A ocasião do silêncio” – assinado por VAV (Vergílio Alberto Vieira, na foto),
expressa com clarividência um olhar sobre o homem, a vida, a obra...
Transcrevo:
Falo
de quem está para perder
A
ocasião do silêncio, e assim se salva.
Vitorino
Nemésio
(O Verbo e a Morte)
« […]
Decidido
a dar continuidade a um ciclo de criação literária que, mergulhando as suas
raízes na antiguidade clássica, optou por não fechar portas a um fundus electivo antecipador de
experiências criativas e processos de escrita renovadores do fazer poético,
nada mais justo reconhecer em que medida o contributo de Albano Martins –
enquanto poeta, tradutor, e estudioso da literatura, a quem a docência
conferiu, como diria George Steiner, o estatuto de “professor inspirado” capaz
de “ensinar bem” e “ser cúmplice de possibilidades transcendentes” – ganhou
foros de cidadania intelectual ímpar,
configurados à luz de uma atitude cultural
cuja mediação reverteu a favor do estabelecimento de valores éticos e
ontológicos, equacionados e realizados no quadro de uma comunicação contrária à
perda do primado da palavra face aos poderes da imagem e dos sistemas
simbólicos.
[…] » VAV
CIPRESTES
Desta
varanda, onde, sopradas
pelo ar
da noite, algumas
sonâmbulas
estrelas ardem, olho
os teus
ciprestes, altos
como
colinas
de luz e
cor. Olho-os
ao
clarão
do luar
entornado
nas
pedras da calçada: fantasmas
dum
serão magoado,
com “um
peso no peito”
e uma
“lágrima civil”
nos
olhos deslumbrados.
[p/ José Mouga]
(mais sobre a Quaderna aqui: https://searasdeversos.blogspot.com/2019/01/quaderna-literatura-y-arte.html
(mais sobre a Quaderna aqui: https://searasdeversos.blogspot.com/2019/01/quaderna-literatura-y-arte.html
