Chamava-se Chico. Se era
Francisco, eu nunca ouvira ninguém tratá-lo desse modo. Tinha o infeliz hábito
de voltar as pálpebras do avesso e correr atrás me mim, a grunhir como um
porco. Eu fugia aterrorizada. Acreditava cegamente que ele tinha o poder de se transformar
em monstro, que a qualquer momento aquele rapaz deixava de ser o filho mais novo do
senhor António, o irmão da Rosa e passava a ser o filho mais velho do diabo. Conseguia
ser assustador sempre que queria. Ele e os gansos que me perseguiam também com
as asas abertas, ameaçadores, quando eu atravessava o portão da velha casa rural, de onde tinha
vindo a Rosa, muito nova ainda, para servir em casa de minha avó. Por algum
tempo eu tive-lhes medo, aos gansos e ao Chico.
Teria aí uns doze ou treze
anos o Chico quando, um dia, vendo-me chegar agarrada à saia da Rosa, com
receio das habituais investidas, se aproximou e me deu a mão, escorraçando os
gansos. Uns tempos mais tarde, com as pálpebras do direito,
olhos de cordeiro manso e voz doce perguntou: Queres casar comigo, quando fores
grande? Não fosse a gargalhada sonora da Rosa e teria sido um momento solene.
Disse-lhe "Não", do alto dos
meus oito anos. Santo António não se intrometeu.
