quarta-feira, 12 de junho de 2019

Pedido de casamento




Chamava-se Chico. Se era Francisco, eu nunca ouvira ninguém tratá-lo desse modo. Tinha o infeliz hábito de voltar as pálpebras do avesso e correr atrás me mim, a grunhir como um porco. Eu fugia aterrorizada. Acreditava cegamente que ele tinha o poder de se transformar em monstro, que a qualquer momento aquele rapaz deixava de ser o filho mais novo do senhor António, o irmão da Rosa e passava a ser o filho mais velho do diabo. Conseguia ser assustador sempre que queria. Ele e os gansos que me perseguiam também com as asas abertas, ameaçadores, quando eu atravessava o portão da velha casa rural, de onde tinha vindo a Rosa, muito nova ainda, para servir em casa de minha avó. Por algum tempo eu tive-lhes medo, aos gansos e ao Chico.
Teria aí uns doze ou treze anos o Chico quando, um dia, vendo-me chegar agarrada à saia da Rosa, com receio das habituais investidas, se aproximou e me deu a mão, escorraçando os gansos. Uns tempos mais tarde, com as pálpebras do direito, olhos de cordeiro manso e voz doce perguntou: Queres casar comigo, quando fores grande? Não fosse a gargalhada sonora da Rosa e teria sido um momento solene.
Disse-lhe "Não", do alto dos meus oito anos. Santo António não se intrometeu.