sábado, 29 de junho de 2019

Poema 9


9.

Comovem-me os poetas
feitos de inesperadas infâncias.
Femininas vozes dispersas
em preces incandescentes.
Comovem-me os amanheceres
em suas peles poentes.
Nos olhos incorruptos
transportam o sol
que lhes quebra o frio das mãos
sempre embriagadas.
Poetas capazes  
de acordar os homens,
de ilibar os animais da terra, do mar, do ar.
Inclinam-se para eles as estrelas,
nas horas de devoção maior.
Até as mais remotas.
Quando se apaixonam,
uma inviolável fé, como se deuses
viessem semear-lhes o coração.
Amam docemente. Às vezes, violentamente.
E vivem numa casa de vidro fosco
virada a nascente a que chamam ausência.
Ainda assim são de mel todas as letras
com que escrevem Saudade.


Lídia Borges, (2019:p.19), Garças, Poética Edições