(pintura de minha autoria, óleo sobre tela)
De que serve
dizeres do novelo na garganta
que é incómodo,
que sufoca, que invoca o sal das lágrimas,
que eleva ao cúmulo a angústia, a remoer?
Sempre que chegamos
a casa e ouvimos nas notícias
a voz sádica dos
senhores do mundo
a levar-nos até
onde a realidade se desagrega e incendeia,
de desculpa em
desculpa, vamos recolhendo os corpos
debruçados sobre
o desespero e a morte, imóveis.
Podes encher-te
de virtuosas indignações,
mas... depois, limpa a
fuligem dos olhos, não vires o espelho,
se o mundo se
inunda de desterrados, moribundos, perseguidos,
admite que tudo
isso não seria possível
sem ti, sem
mim...
Lídia Borges
Lídia Borges