quinta-feira, 27 de junho de 2019

Sem ti, sem mim...

(pintura de minha autoria, óleo sobre tela)


De que serve dizeres do novelo na garganta
que é incómodo, que sufoca, que invoca o sal das lágrimas,
que eleva ao cúmulo a angústia, a remoer?

Sempre que chegamos a casa e ouvimos nas notícias
a voz sádica dos senhores do mundo
a levar-nos até onde a realidade se desagrega e incendeia,
de desculpa em desculpa, vamos recolhendo os corpos
debruçados sobre o desespero e a morte, imóveis.

Podes encher-te de virtuosas indignações,
mas... depois, limpa a fuligem dos olhos, não vires o espelho,
se o mundo se inunda de desterrados, moribundos, perseguidos,
admite que tudo isso não seria possível
sem ti, sem mim...


Lídia Borges