Para que cantem
é preciso que o coração
tenha a forma de um ninho,
o pensamento seja maduro e liso
como a luz de um sol de outono.
Depois, em vigília, há
que
romper o silêncio, beber o
canto
que trazem desde o azul
celeste
até que nos seja
leveza
e emancipação.
O peso sob os pés,
o fascínio mortal da
serpente, rente ao solo
não são parte deste poema, convém
dizê-lo.
Aqui, as aves falam do
divino e do terrestre,
na linguagem inteligível de
reis e plebeus.
Falam do vinho e da sua
alegria contagiante
da seiva acesa a acalentar
sonhos
e desígnios e utopias e
outras coisas
como estas
de natureza volúvel.
Tudo estaria certo não
fosse uma coruja
saída hoje de um velho
alfarrábio me afirmar friamente
que os deuses estão
mortos.
E as aves… promessas vãs,
sombras que na tarde crescem.
Só o silêncio arde, azul, no
vazio que a veste.
Lídia Borges, (2015:p.15)
