domingo, 14 de julho de 2019

Aves


Para que cantem
é preciso que o coração
tenha a forma de um ninho,
o pensamento seja maduro e liso
como a luz de um sol de outono.

Depois, em vigília, há que 
romper o silêncio, beber o canto
que trazem desde o azul celeste
até que nos seja leveza 
e emancipação.

O peso sob os pés,
o fascínio mortal da serpente, rente ao solo 
não são parte deste poema, convém dizê-lo.

Aqui, as aves falam do divino e do terrestre,
na linguagem inteligível de reis e plebeus.
Falam do vinho e da sua alegria contagiante
da seiva acesa a acalentar sonhos 
e desígnios e utopias e outras coisas
como estas
de natureza volúvel.

Tudo estaria certo não fosse uma coruja 
saída hoje de um velho alfarrábio me afirmar friamente
que os deuses estão mortos.
E as aves… promessas vãs,
sombras que na tarde crescem.
  
Só o silêncio arde, azul, no vazio que a veste.


Lídia Borges, (2015:p.15)