terça-feira, 1 de outubro de 2019

A Cidade e o Rio


 (Foto:pesquisa google sem ind. autoria)

Todas as cidades têm o seu rio. Cidade e rio são muitas vezes carne e sangue de um mesmo corpo.
A vida das pessoas é influenciada pelo rio e a vida do rio pelas pessoas. Assim, rio e cidade são frequentemente indissociáveis. Poetas, pintores, músicos, cineastas, etc… desde sempre entenderam esta proximidade e souberam encher de rios e de cidades as suas obras. Estou a lembrar-me de Diogo Bernardes, por exemplo, que imortalizou o rio Lima e a beleza das suas margens; do Zeca Afonso - "Oh Coimbra do Mondego / E dos amores que eu lá tive"; do Douro de A.M. Pires Cabral, “com as inquietas aves ribeirinhas”; “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,” a aldeia é a de F. Pessoa…O Tejo! Sem ele, nem a “memória das naus, o “Mundo Novo”, nem Os Lusíadas, nem telas  de Alfredo Keil, como: No Cais do Tejo, ou os desenhos de Júlio Pomar - "Talvez tenha sido a falta de ver o Tejo que me levou a desenhar" -  ou ainda tantos e tantos outros  que “por esse rio acima” acrescentaram  vidas à vida deste povo que somos.

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A minha cidade não teve direito a um rio, aquando da distribuição pelos deuses, das águas. Atribuíram-nos Sete Fontes, fora as outras todas não contadas, e um regueiro a que, por graça ou devaneio, chamamos Rio Este. O caudal que o sustenta não chega nem aos tornozelos de um poema de estatura média nem às cerdas de um pincel que, a azul, o deseje. Talvez, por isso, a cidade se tenha tornado tão árida. Apesar de tudo, o nosso rio ainda congrega junto de si, uma movimentação interessante, alimentado pela proximidade do complexo desportivo da rodovia que atrai gente de todas as idades, de todas as proveniências e classes que, diariamente, ali faz o seu exercício físico  ou alinha apenas no ir e vir de uma caminhada ou numas voltas de bicicleta pelos trilhos “desenhados” recentemente ao longo das margens. O número de adeptos destas atividades tem vindo a crescer progressivamente, não só, mas também pela chegada em força  de brasileiros à cidade que, descoberto o parque e, à falta de uma Copacabana, se contentam com aquele espaço para correr, caminhar, conversar, num exercício de integração que, visto do lado de fora, como eu o vejo, parece fácil. Pode sentir-se, de algum modo, o pulsar da cidade nestas passeatas matinais nas margens do Este.

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O rio, menos rio ainda nesta época do ano, está poluído, também, no torço urbano. Ao longo dos tempos foram acontecendo, esporadicamente, ações de voluntariado para limpar o curso de água, mas parece serem sempre mais fortes os que sujam do que os que limpam.  De quando em vez, a débil corrente da água arrasta consigo umas espessas camadas de espuma que avivam a indignação dos mais atentos. Diz-se que são provenientes de descargas das pocilgas existentes em terrenos atravessados pelo Este; que todos conhecem os culpados, que ninguém atua… Gera-se um coro de indignação, naturalmente, que se traduz num avolumar de queixas, às entidades competentes, (80 desde 2014, segundo Tiago Mendes Dias, jornal Público, 27 de Janeiro de 2019)com ecos no fórum da cidade e nas redes sociais que poucos efeitos práticos têm tido. 
Há dias, reparei em algumas pessoas, calçadas com galochas até aos joelhos que recolhiam lixo do leito do rio para grandes sacos plásticos. Pensei: Ora, aqui está uma prova de empenhamento cívico! Ainda não tinha acabado de organizar no pensamento o que via, quando mesmo a meu lado, rebenta uma discussão acesa: uma mulher que caminhava num pequeno grupo, ao passar pela “brigada de limpeza”, atirou: “P’rá semana já não se vê aqui ninguém a limpar”. A “senhora”, de galochas calçadas, e camisola (cuja inscrição, nas costas, não consegui decifrar), que dava ordens a quem estava dentro do rio e disparava flashes para a direita e para a esquerda, não gostou do que ouviu e ripostou: “a senhora também devia estar lá dentro. Isto é de todos e, se todos sujam, todos deviam limpar.” Juntaram-se-lhe algumas vozes solidárias, mas a outra não se deu por vencida: “ah!... mas você que até está toda equipada tem as suas galochas bem sequinhas. Limita-se a mandar e a tirar fotografias. Amanhã já vem tudo no jornal. É o que lhes interessa. Politiquices e mais nada!” Os passantes iam abrandando o ritmo e depressa se juntou ali um grupo considerável de pessoas, uns com argumentos a favor de uma e outros a favor da outra, uns contra uma, outros contra a outra. A discussão aumentava de tom e eu fui ficando para poder “ver” a forma e a força de cada argumento. Dei conta então que os cinco "voluntários" que limpavam o leito escorregadio, tinham interrompido o trabalho e, com as luvas pendentes, em desânimo, olhavam em redor. Eram pessoas portadoras de deficiência mental e a confusão pairava-lhes nos rostos.


Saí dali molestada, a pensar que há situações em que distinguir o lado da Razão é uma tarefa para poucos. E porquê? Porque a “era” do espetáculo toma tudo e não há escrúpulos de espécie alguma, para aqueles que se servem dos outros, em proveito próprio. O parecer reúne, hoje, muitos mais adeptos que o Ser e daí, o circo, o palco, o "faz-de-conta".
Neste caso, como em outros, uma ação que seria a todos os níveis louvável, que teria a saúde do rio e das pessoas como preocupação maior, pode camuflar interesses de outras águas (turvas), de outras naturezas... E isto assim é tudo uma m… 




Lídia Borges