(imagem: Caras Ionut)
I
Abria-se
um livro
e era
logo primavera.
Um restolhar
de cores e sons
batia asas
sobre as cabeças
acordando-as
acordando-as
e as
palavras dançavam conforme
os deuses
haviam anunciado.
Para
lá dos vidros, a tarde é quente.
Vejo-a
passar… a vida!
Vejo como,
discretamente,
sobe até
à maturação das folhas
que o
outono com gestos brandos de embalar
derruba.
[...]
[...]
II
Assim
estava dito neste poema
guardado
numa gaveta sem chave.
Comovo-me
como se tudo o que me existe
numa
vida outra me existisse.
Do
lado de cá dos vidros
um restolhar de sílabas,
primavera
num espaço abstrato em mim.
Hei de
um dia acabar de escrever o poema.
Não
sei porquê, mas sinto que não acaba aqui.
Talvez
quando os livros se fecharem sobre si
como braços
sobre um corpo amado.
Hão de
calar-se um dia as paixões e as razões,
verbos
mudos, mortos e mudas as ausências
naufragadas no ventre das páginas secas.
Apagada
a luz onde já não houver luz
e nada
então será dor.
Lídia Borges
Lídia Borges
