terça-feira, 22 de outubro de 2019

Abria-se um livro

(imagem: Caras Ionut)


I

Abria-se um livro
e era logo primavera.
Um restolhar de cores e sons
batia asas sobre as cabeças
acordando-as
e as palavras dançavam conforme
os deuses haviam anunciado.

Para lá dos vidros, a tarde é quente.
Vejo-a passar… a vida!
Vejo como, discretamente,
sobe até à maturação das folhas 
que o outono com gestos brandos de embalar
derruba.

[...]


II

Assim estava dito neste poema
guardado numa gaveta sem chave.
Comovo-me como se tudo o que me existe
numa vida outra me existisse.

Do lado de cá dos vidros
um restolhar de sílabas,
primavera num espaço abstrato em mim.
Hei de um dia acabar de escrever o poema.
Não sei porquê, mas sinto que não acaba aqui.

Talvez quando os livros se fecharem sobre si                                
como braços sobre um corpo amado.
Hão de calar-se um dia as paixões e as razões,
verbos mudos, mortos e mudas as ausências
naufragadas no ventre das páginas secas.

Apagada a luz onde já não houver luz
e nada então será dor.



Lídia Borges