sábado, 26 de outubro de 2019

Emoções



Só para te dizer, meu bem, que a Poesia és tu.
Lídia Borges


Ainda não tinha terminado de sonhar o meu sonho, diversas vezes interrompido pela habitual gripe de outono que ora me faz tossir, ora suar, tremer, acordar, voltar a dormir, quando o telemóvel deu sinal. 6:30h. É cedo demais. Não mexo um dedo. Deve ser o costume. Além de que já ando a sentir-me importunada pelo Pinterest que me massacra com imagens que... «talvez te inspirem pinturas.» Desinteressada serventia!
Fui obrigada a deixar o sonho mal sonhado na floresta Amazónica, entre micos insuportáveis, guizos de serpentes ondulantes e escorpiões a emergirem dos solos alagados. Tudo isto no meio de uma feroz perseguição que eu perpetrava contra uma onça, a expelir ódio por todos os lados, à qual tinham matado as crias e, por esse motivo, dera em atacar tudo o que parecesse humano e mexesse. Profundamente ferida na sua possante natureza de mãe protetora, não deixaria a vingança por garras alheias. Afinal, acabei por acordar mesmo a tempo de me salvar, já que, na minha arma, restavam apenas dois cartuchos completamente humedecidos pelas fortes chuvadas que caíam e a onça, que nunca se vira como perseguida, mas como predadora, já preparava o salto que me enviaria, sem mas nem porquê, para o lado de lá da existência. Penso até que a gripe me atacou, aproveitando-se precisamente dessa minha cruzada noturna, ora fugindo, ora buscando a fera, debaixo de uma tempestade tropical, raramente vista.
Completamente acordada, detive-me a pensar quem cometera a imprudência de me entregar, a mim, a ingrata tarefa de liquidar o animal, sendo eu uma pacifista convicta que nunca tinha empunhado uma arma e da Amazónia conhecia somente paisagens toldadas de nascentes e poentes em que toda a beleza do mundo, magnânima, se reunia ali, como só numa sugestão de pintura do Pinterest. Conhecia também, é verdade, Un viejo que leía novelas de amor, e parece-me até que fora ele, esse Velho, o arquiteto do meu sonho, pois aconteceu que ontem, ao passar pela estante maior da casa, a luz incidia, mansa, sobre o livro de Luis Sepúlveda, ali bem encostadinho aos meus “lusófonos”. Hei de voltar ali - pensei.

No telemóvel não era o Pinterest.

Eu sei que ninguém quer saber do que sente uma mãe a quem lhe roubam as crias ou uma avó, quando não pode encher o colo com a Alegria toda de um neto, no dia em que  este completa um ano de vida. Do Amor, ninguém quer saber. Sim, porque é de Amor que vos falo. Um Amor que aprendi sofregamente; que, como todo o Amor que é grande se faz maior,  quando na lonjura vivido; que, não obstante, a distância, (colmatada, em certa medida, pelo avanço das telecomunicações), tem o sabor dulcíssimo daquela "maçã mais alta" de que fala Vergílio Alberto Vieira, referindo-se a um neto seu.
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Um dia ouvi dizer a um “crítico literário”: “«a Poesia… a Poesia, não é nada disto. Ninguém quer saber de quem escreve? O que é preciso é falar do mundo.»
E eu pergunto o que é o mundo se não o estar inteiramente nele. Digo que da maldade, da boçalidade, da feiura do mundo ninguém quer saber desde que, a maldade, a boçalidade, a feiura, atinja outros que não a si próprios. E da Beleza? – «Ora, a beleza, a beleza!...A Poesia não é nada disso.» 

O que acontece é que a Poesia é, hoje, dia 26 de outubro, como sempre foi,  individual e coletiva, simultaneamente. Basta que haja no mundo uma ou outra avó que, como eu, não possa encher o colo com a Alegria toda de um neto, no dia do seu primeiro aniversário, para que no poema o sentimento de carência se afaste automaticamente do individual que parecia, e tome a amplitude de uma planície aberta aos "sete ventos".

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Depois, um apelo fortíssimo, mais uma ordem que um pedido. Vem de tão fundo, de tão longe que não é possível ignorá-lo ou (d)escrevê-lo. Diz-nos o poema que devemos esperar, que o corpo, como a terra cansada não é capaz de criar seus frutos mais perfeitos, sem que o tempo lhe restitua a capacidade de ser, plenamente.


No telemóvel não era o Pinterestmas um vídeo/presente – One Second Everyday – uma imagem, um momento, por cada dia de vida do João Matias, (na foto, Fredrikstad, Noruega),  desde o nascimento até ao dia de hoje – um ano, depois.



Lídia Borges