Só
para te dizer, meu bem, que a Poesia és tu.
Lídia Borges
Ainda
não tinha terminado de sonhar o meu sonho, diversas vezes interrompido pela habitual
gripe de outono que ora me faz tossir, ora suar, tremer, acordar, voltar a dormir, quando
o telemóvel deu sinal. 6:30h. É cedo demais. Não mexo um dedo. Deve ser o
costume. Além de que já ando a sentir-me importunada pelo Pinterest que
me massacra com imagens que... «talvez te inspirem pinturas.» Desinteressada
serventia!
Fui
obrigada a deixar o sonho mal sonhado na floresta Amazónica, entre micos
insuportáveis, guizos de serpentes ondulantes e escorpiões a emergirem dos solos
alagados. Tudo isto no meio de uma feroz perseguição que eu perpetrava contra uma
onça, a expelir ódio por todos os lados, à qual tinham matado as crias e, por esse motivo, dera
em atacar tudo o que parecesse humano e mexesse. Profundamente ferida na sua possante
natureza de mãe protetora, não deixaria a vingança por garras alheias. Afinal, acabei por acordar mesmo a tempo de me
salvar, já que, na minha arma, restavam apenas dois cartuchos completamente humedecidos
pelas fortes chuvadas que caíam e a onça, que nunca se vira como perseguida, mas
como predadora, já preparava o salto que me enviaria, sem mas nem porquê, para o lado de lá da existência. Penso
até que a gripe me atacou, aproveitando-se precisamente dessa minha cruzada noturna, ora fugindo,
ora buscando a fera, debaixo de uma tempestade tropical, raramente vista.
Completamente
acordada, detive-me a pensar quem cometera a imprudência de me entregar, a mim,
a ingrata tarefa de liquidar o animal, sendo eu uma pacifista convicta que
nunca tinha empunhado uma arma e da Amazónia conhecia somente paisagens toldadas
de nascentes e poentes em que toda a beleza do mundo, magnânima, se reunia ali,
como só numa sugestão de pintura do Pinterest. Conhecia também, é verdade, Un viejo que leía novelas de amor,
e parece-me até que fora ele, esse Velho, o arquiteto do meu sonho, pois aconteceu que ontem, ao passar pela estante maior da casa, a luz incidia, mansa, sobre o livro
de Luis Sepúlveda, ali bem encostadinho aos meus “lusófonos”. Hei de voltar ali - pensei.
No
telemóvel não era o Pinterest.
Eu
sei que ninguém quer saber do que sente uma mãe a quem lhe roubam as crias ou uma avó, quando não pode encher o colo com a Alegria toda de um neto, no dia
em que este completa um ano de vida. Do Amor, ninguém quer saber. Sim,
porque é de Amor que vos falo. Um Amor que aprendi sofregamente; que, como todo o Amor que é grande se faz maior, quando na lonjura vivido; que, não obstante, a distância, (colmatada, em certa medida, pelo avanço das telecomunicações), tem o
sabor dulcíssimo daquela "maçã mais alta" de que fala Vergílio Alberto Vieira,
referindo-se a um neto seu.
***
Um
dia ouvi dizer a um “crítico literário”: “«a Poesia… a Poesia, não é nada disto. Ninguém quer saber de quem escreve? O que é preciso é falar do mundo.»
E
eu pergunto o que é o mundo se não o estar inteiramente nele. Digo que da maldade, da boçalidade, da feiura do mundo ninguém quer saber desde
que, a maldade, a boçalidade, a feiura, atinja outros que não a si próprios. E da Beleza?
– «Ora, a beleza, a beleza!...A Poesia não é nada disso.»
O
que acontece é que a Poesia é, hoje, dia 26 de outubro, como sempre foi, individual e coletiva, simultaneamente. Basta que haja no mundo uma ou outra avó que, como
eu, não possa encher o colo com a Alegria toda de um neto, no dia do seu primeiro
aniversário, para que no poema o sentimento de carência se afaste automaticamente
do individual que parecia, e tome a amplitude de uma planície aberta aos "sete ventos".
Depois,
um apelo fortíssimo, mais uma ordem que um pedido. Vem de tão fundo, de tão
longe que não é possível ignorá-lo ou (d)escrevê-lo. Diz-nos o poema que devemos esperar, que o
corpo, como a terra cansada não é capaz de criar seus frutos mais
perfeitos, sem que o tempo lhe restitua a capacidade de ser, plenamente.
No telemóvel não era o Pinterest, mas um vídeo/presente – One Second Everyday – uma imagem, um momento, por
cada dia de vida do João Matias, (na foto, Fredrikstad, Noruega), desde o nascimento até ao dia de hoje – um ano,
depois.
Lídia
Borges
