quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Impossibilidade



I

Vagamente tristonho
passa entre os sonhos
como se entre nuvens, sem se deter
nem mesmo quando subitamente
um cardume de peixes surdos-mudos
lhe envolve o cérebro,
dormente.
Penso se devo roubar-lhe o silêncio.
Soberbo! Se devo abri-lo, 
como a uma chama nua,
a bisturi. 

II

Mas, se é criação o sonho,
que sono devo dormir para o alcançar?
De que sono acordar para a geometria dos rios
e das pulsões afluentes... de que sonho...?

De que sono
progredir para a materialidade
das palavras extintas?
como fazer brotar a fala
de um solo mineral e denso
que a luz não atravessa?

III

Toco a impossibilidade do poema
enquanto os diospiros sobre a mesa 
me negam um verso para esculpir o outono.


(imagem: Alireza Darvish)