sexta-feira, 18 de outubro de 2019

De resto/Baile de Cítaras - Poema 32/Garças

(imagem Google s/ ind. autoria)

Do amor ficou a ternura
de águas nunca passadas,
de Deus o quadro antigo
suspenso sobre a cristaleira.

Dos amigos, um breve aroma de papoilas
que o vento se entretém a dispersar,
vagarosamente.
Dos inimigos... nada!

De resto
a vida continua a fazer prisioneiros
e a condená-los ao desterro.

Os mais sensíveis já pereceram
os imbecis continuam a rir,
as bocas eivadas de ervas daninhas.


Os temerários resistem
bandeiras e sonhos em riste.
As mulheres padecem.
As crianças pasmam.



Lídia Borges (2015:p.103) Baile de Cítaras, Poética Edições.





















Poema 32



Nos dias de sol
cantam melhor os pássaros 
no beiral do teu coração – observas.

Nem sempre – digo-te.
É frequente os pássaros levarem
daqui as pautas e cantarem lá fora
rente ao rubor de palavras mais
ensolaradas.

Nos dias de sol, nem sempre
estou no jardim, à tua espera
com as mãos cheias de pássaros.
Adivinho o provável arfar da chuva
em certos corações
estranhos aos rumores do sol.

E esqueço-me sempre de abrir
o guarda-chuva. Fica tudo molhado
por dentro até à raiz do silêncio.
O que fazes, então? – queres saber.
Deixo o coração
numa gaveta da cómoda
dentro de um envelope fechado
como uma carta de amor por abrir
até que seque. E sigo sem coração,
cambaleante.


Lídia Borges (2019:p.47), Garças, Poética Edições.


    Raramente regresso aos meus livros (estes de poesia). Não gosto de o fazer. Mas, por vezes, espreito, só para verificar se ainda lá me encontro. E sim, estou presente em cada palavra, em cada pensamento, em cada emoção!...