(imagem Google s/ ind. autoria)
de águas nunca passadas,
de Deus o quadro antigo
suspenso sobre a cristaleira.
Dos amigos, um breve aroma de papoilas
que o vento se entretém a dispersar,
vagarosamente.
Dos inimigos... nada!
De resto
a vida continua a fazer prisioneiros
e a condená-los ao desterro.
Os mais sensíveis já pereceram
os imbecis continuam a rir,
as bocas eivadas de ervas daninhas.
Os temerários resistem
bandeiras e sonhos em riste.
As mulheres padecem.
As crianças pasmam.
Lídia Borges (2015:p.103) Baile de Cítaras, Poética Edições.


Poema 32
Nos dias de sol
cantam melhor os pássaros
no beiral do teu coração – observas.
Nem sempre – digo-te.
É frequente os pássaros levarem
daqui as pautas e cantarem lá fora
rente ao rubor de palavras mais
ensolaradas.
Nos dias de sol, nem sempre
estou no jardim, à tua espera
com as mãos cheias de pássaros.
Adivinho o provável arfar da chuva
em certos corações
estranhos aos rumores do sol.
E esqueço-me sempre de abrir
o guarda-chuva. Fica tudo molhado
por dentro até à raiz do silêncio.
O que fazes, então? – queres saber.
Deixo o coração
numa gaveta da cómoda
dentro de um envelope fechado
como uma carta de amor por abrir
até que seque. E sigo sem coração,
cambaleante.
Lídia Borges (2019:p.47), Garças, Poética Edições.
Raramente regresso aos meus livros (estes de poesia). Não gosto de o fazer. Mas, por vezes, espreito, só para verificar se ainda lá me encontro. E sim, estou presente em cada palavra, em cada pensamento, em cada emoção!...
