sábado, 5 de outubro de 2019

Prosa




I
Construíram a caixa, apressadamente.
Não servia a quem devia ocupá-la. Era preciso ajustar o conteúdo.
Durante dias e noites sem fim,
semanas, meses, anos,
utilizaram o martelo, a bigorna, o aço, o ferro, o fogo, o gelo, o verdete da língua… Nada!
Era estável, permanente
a forma daquele Ser que [obviamente] não podia ser.
Tinha de haver um meio de quebrar-lhe o aprumo, de levá-lo a assumir a imagem pré-concebida.
Formaram-se  turnos. Deu-se início ao labor: 
deformaram, empurraram, bateram, puxaram,
esticaram, dobraram, mortificaram... Nada!
Nenhuma metamorfose que facilitasse
a aderência daquela humana substância
à caixa que lhe era destinada.
Empenhados em tão absorvente tarefa
nenhum programador, engenheiro ou construtor
se lembrou que o defeito podia estar, 
não na formatação da matéria, 
mas no formato da caixa.


II

Agraciam as fontes
e a cativação perene dos olhares,
das mãos amáveis,
do ser justo à placidez de cada gesto,
os que, de certas nascenças são feitos.
E, quando inquiridos, acusados, torturados,  
pela estranheza que causam nos outros,
[serão ainda humanos os que não traem?]
resistem sem esforço, sem espada e sem escudo.
Porém, ao entardecer,
agastados por quanto o mundo lhes dá a ver,
interrogam-se frequentemente sobre a Tristeza,
essa senhora de negro que lhes calca o coração
e ensombra o branco das páginas.

Quantas, por efeito dessa sombra, 
ficarão por escrever?

Lídia Borges


(imagem: Gabriele C.)