(Pintura: Duy Huynh)
I
Verifico minhas incompetências
para manhãs verdes
de musgos e fungos nos muros,
de inodoras malvas e cidreiras
lambidas por caracóis.
Meu horizonte é um poente
dolente
de andorinhas gastas.
Estou atónita
no centro de uma palavra-pedra. Sóbria.
Sua gravidade comeu-me a língua.
Desampliou-me.
Abreviou minhas intenções
de orvalho.
Vejo como a noite cai do teto.
O inseto que veio morar no meu ouvido
zune, reavivado.
Rumores de nuvens
alavancadas de vento
estão a devorar-lhe as asas. Eu oiço.
Não, não anseio o retorno.
Minha vocação é toda de ida.
As palavras revelaram-se formas rudes,
deformadoras.
Quando amanhecer
vou desfolhar dicionários,
vou encher de destroços
os desertos.
Hão de assemelhar-se
a roseirais em ruínas.
O rubor das pétalas
à superfície...
Desmaiado
ou vivo ainda.
ou vivo ainda.
Lídia Borges
