sábado, 16 de maio de 2020

"Sou Viagem"


É bom, neste contexto de afastamentos, podermos continuar a viajar, a sonhar, a escrever.
Hoje não falarei dos abraços, das flores, dos sorrisos que esses nos faltam. Mas não nos é falta a Amizade que a Poesia e a Vida cultivam, preservam e cuidam, em nós. Essa fica. É como uma renda delicada a debruar afetos, a alisar caminhos, a criar pontes...

Felicito a autora e amiga Maria Isabel Fidalgo, por este novo livro onde a "viagem" se configura em lugares da memória e da tradição; a vida, o ser... o amor como forma de resistência à massificação existencial dominante na nossa contemporaneidade.



É sempre no amor que pouso os ramos
e nele planto acácias ou faço florescer
rosas e cerejas no inverno gélido.
Dir-me-ás que repito as flores e os frutos
que massacro de primavera os versos
que soletro gorjeios violáceos
para falar de amor.
E eu dir-te-ei que sim
que é sempre no amor que poiso os ramos
e que nele colho o sémen, a bússola, a maravilha.
Porque o amor faz-me cantar nas árvores altas
faz-me correr nos bosques
castiga-me de estrelas
traz-me um tempo de palavras cálidas
nas cordas do frio rigoroso.
Por isso,
é sempre no amor que poiso os ramos
e crescem-me galhos de aves no coração.


Maria Isabel Fidalgo (2020), in Sou Viagem, Poética Edições.