É bom, neste contexto de afastamentos, podermos continuar a viajar, a sonhar, a escrever.
Hoje não falarei dos abraços, das flores, dos sorrisos que esses nos faltam. Mas não nos é falta a Amizade que a Poesia e a Vida cultivam, preservam e cuidam, em nós. Essa fica. É como uma renda delicada a debruar afetos, a alisar caminhos, a criar pontes...
Felicito a autora e amiga Maria Isabel Fidalgo, por este novo livro onde a "viagem" se configura em lugares da memória e da tradição; a vida, o ser... o amor como forma de
resistência à massificação existencial dominante na nossa contemporaneidade.
É
sempre no amor que pouso os ramos
e
nele planto acácias ou faço florescer
rosas
e cerejas no inverno gélido.
Dir-me-ás
que repito as flores e os frutos
que
massacro de primavera os versos
que
soletro gorjeios violáceos
para
falar de amor.
E
eu dir-te-ei que sim
que
é sempre no amor que poiso os ramos
e
que nele colho o sémen, a bússola, a maravilha.
Porque
o amor faz-me cantar nas árvores altas
faz-me
correr nos bosques
castiga-me
de estrelas
traz-me
um tempo de palavras cálidas
nas
cordas do frio rigoroso.
Por
isso,
é
sempre no amor que poiso os ramos
e
crescem-me galhos de aves no coração.
Maria Isabel Fidalgo (2020), in Sou Viagem, Poética Edições.

