sábado, 30 de maio de 2020

(In)utilidades



Sem vaidade que se veja
silvestres da folha à seiva
de lindeza sem igual
brotaram as capuchinhas
como se fossem minhas,
ao fundo do quintal.

Chamam-lhes chagas,
pragas invasoras…
Por mim
não lhes noto ares que tal.
Sem ruído o colorido
acolhe e enaltece,
creio até ser em seu seio
que o sol amadurece.

Não se ralem os prosaicos,
lentes foscas no olhar, 
sete dias por semana
sete noites sem parar
a culpar a Poesia

de só Ser sem enformar,
o que interessa a capuchinha?
inútil, sem eira nem beira.
Mal empregues são os versos
a uma vulgar trepadeira.


Acontece-me não saber
separar a Poesia
das coisas do dia a dia 
onde por vezes se aninha
mesmo à frente do meu ver
um bouquet de capuchinha.

Mais informo, [sem desdém],
julgo ser o meu dever,
que desta flor do campo
tudo se pode comer.
Semente, folha, flor 
e a beleza que tem,
tal como a Poesia 
que é comestível, também.

E lá vai na enxurrada
o velho argumento do 
"não serve para nada".


Lídia Borges