(Consuelo Arantes)
Perdida em mil cansaços, também eu
gostaria de soletrar velhas palavras. Generosas. Beijo, flor, amigo,
abraço, berço, música, estrela...
Havia outrora um coração e uma boca
cheios delas, quando o respirar era a pulmões inteiros. Depois as palavras
foram-se acomodando à geometria dos silêncios. Outras vieram por improváveis
ortografias, soterrá-las, contaminá-las com a superficialidade de vozes
que oiço e me recuso a traduzir, sem que seja fugindo ao suplício do real.
Oh, tomara que fossem comunicáveis as emoções que me perturbam e inquietam
quando me debruço sobre as palavras que me rodeiam. Quanto mais minhas,
quanto mais profundamente as cinjo ao corpo que sou, menos visíveis, menos
legíveis, menos audíveis, para os outros que as estranham. Domá-las como?
Irredutíveis, são como gente, vivas, de si próprias, senhoras. Distanciam-se do
mundo até à incredulidade e, quando menos espero, regressam a ele por
inacessíveis percursos, lugares que me são interditos. Carregam o frio todo dos
invernos, as febres e as fomes dos homens e das mulheres, as sedes tumultuosas,
a rebelião ostensiva do mundo. Palavra nenhuma possui ciência capaz de curar os
males da humanidade. Por isso, sentimos os braços e os pés atados, sentimos que
se enrola o grito na garganta, temos dificuldades em assimilar a nossa
insuperável pequenez. Percebemos, a páginas tantas, que a realidade não torna
mais verdadeiras e úteis as palavras, apenas mais tristes, cada dia um pouco
mais próximas dos fantasmas que nos acenam por entre os matagais impenetráveis
dos tempos.
Necessito indignar-me com afinco contra
a ilusão do real que me fustiga a face como uma metáfora indubitavelmente
falhada.
Voltemos, portanto, ao voo da cotovia.
Lídia Borges
