domingo, 31 de maio de 2020

Voltemos portanto...

(Consuelo Arantes)

Perdida em mil cansaços, também eu gostaria de soletrar velhas palavras. Generosas. Beijo, flor, amigo, abraço, berço, música, estrela... 
Havia outrora um coração e uma boca cheios delas, quando o respirar era a pulmões inteiros. Depois as palavras foram-se acomodando à geometria dos silêncios. Outras vieram por improváveis ortografias, soterrá-las, contaminá-las com a superficialidade de vozes que oiço e me recuso a traduzir, sem que seja fugindo ao suplício do real. Oh, tomara que fossem comunicáveis as emoções que me perturbam e inquietam quando me debruço sobre as palavras que me rodeiam. Quanto mais minhas, quanto mais profundamente as cinjo ao corpo que sou, menos visíveis, menos legíveis, menos audíveis, para os outros que as estranham. Domá-las como? Irredutíveis, são como gente, vivas, de si próprias, senhoras. Distanciam-se do mundo até à incredulidade e, quando menos espero, regressam a ele por inacessíveis percursos, lugares que me são interditos. Carregam o frio todo dos invernos, as febres e as fomes dos homens e das mulheres, as sedes tumultuosas, a rebelião ostensiva do mundo. Palavra nenhuma possui ciência capaz de curar os males da humanidade. Por isso, sentimos os braços e os pés atados, sentimos que se enrola o grito na garganta, temos dificuldades em assimilar a nossa insuperável pequenez. Percebemos, a páginas tantas, que a realidade não torna mais verdadeiras e úteis as palavras, apenas mais tristes, cada dia um pouco mais próximas dos fantasmas que nos acenam por entre os matagais impenetráveis dos tempos.  
Necessito indignar-me com afinco contra a ilusão do real que me fustiga a face como uma metáfora indubitavelmente falhada. 


Voltemos, portanto, ao voo da cotovia.


Lídia Borges