terça-feira, 23 de junho de 2020

Dialógos (2)


[…]
o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim,
deslocando todo o peso do sangue sobre a metade
mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».

Carlos de Oliveira




De vez em quando o sono é um prado
extenso, vazio de carneiros.
Fico assim impedida de contá-los,
o que abreviaria, [quem o disse?]
a verve despertíssima
da minha molesta insónia.
Imagino um rebanho,
mais de mil cabeças
em movimentação caótica
que me faria resvalar para o sono,
antes do último animal pular
a cerca da estimativa.

Começo a contar,
no teto, os carneiros que não vejo,
evitando assim voltar-me 
para o lado direito
de onde vem a insónia,
arrogante,
e também, para o lado esquerdo,
[o mais castigado],
com o peso todo do sangue
sobre o coração,

amordaçando-o.



Lídia Borges