Não tenho pressa. Pressa de
quê?
Não têm pressa o sol e a
lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a
gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta
por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego
exactamente aonde o meu braço chega —
Nem um centímetro mais
longe.
Toco só onde toco, não aonde
penso.
Só me posso sentar aonde
estou.
E isto faz rir como todas as
verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é
que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa
realidade.
E estamos sempre fora dela
porque estamos aqui.
20-6-1919
Alberto Caeiro
“Poemas Inconjuntos”. Poemas
Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de
Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença,1994.- 147.
