Do
artigo - Da Palavra ao silêncio / Poética
«O
futuro do homem é o homem», estamos de acordo. Mas o homem do nosso futuro não
nos interessa desfigurado. Este animal triste que nos habita há milhares de
anos, cujas possibilidades estamos tão longe de conhecer, é o fruto de uma
desfiguração – acção de uma cultura mais interessada em ocultar ao homem o seu
rosto do que em trazê-lo, belo e tenebroso, à luz limpa do dia. É contra a
ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta
amputação no corpo vivo da vida que o poeta se rebela. E se ousa “cantar no
suplício” é porque não quer morrer sem se olhar nos próprios olhos, e
reconhecer-se, e detestar-se, ou amar-se, se for caso disso, no que não creio.
De Homero a S. João da Cruz, de Virgílio a Alexandre Blok, de Li Bai a William
Blake, de Bashô a Kavafis, a ambição maior do fazer poético foi sempre a mesma:
Ecce Homo, parece dizer cada poema. Eis o homem, eis o seu efémero rosto
feito de milhares e milhares de rostos, todos eles esplendidamente respirando
na terra, nenhum superior a outro, separados por mil e uma diferenças, unidos
por e mil e uma coisas comuns, semelhantes e distintos, parecidos todos e contudo
cada um deles único, solitário e desamparado. […]
Eugénio
de Andrade (2011, Abril, p.158), Prosa /Eugénio de Andrade
