Não te adormeça
o pousar delicado da caneta
no pardalito em
que reparas
entre embevecimento
e espanto.
Não te adormeça
nesse olhar
antigo a bonomia
que te ficou
presa na alma.
A mesma que abraças como talismã
contra a mágoa de inarráveis verbos.
Repassam à
sombra do verão
paulatinamente
peixes de chumbo em cardumes,
[não te adormeça o olhar].
Procuram expandir a canibalesca
sede de sangue. Sente-los?
Sentes o
secular ódio que regurgitam?
Não te entorpeça
a tristeza
de os sentires assim próximos, sólidos,
sinistros.
Poderás voltar
ainda às sílabas latejantes
que te amaciam
os dedos da escrita?
Aos líquidos cânticos líricos
que se demoram,
de ramo em ramo,
nos limoeiros?
II
Ou reterás outras paisagens que deslizam
aquáticas
para a tua intimidade,
a tomar uma a uma as divisões da casa?
O poema não suporta o abismo que o circunda.
Sem um pouco de claridade, sem o ar fresco
de uma janela aberta para o quintal,
soçobra às portas da página nua.
Do poleiro do verso mais alto
do teu canto... só em surdina
o sentido das coisas se denuncia
em dolorosas minúcias.
Lídia Borges
(imagem s/ ind. de autoria)
