quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Não te adormeça


Não te adormeça

o pousar delicado da caneta

no pardalito em que reparas

entre embevecimento e espanto.

 

Não te adormeça

nesse olhar antigo a bonomia

que te ficou presa na alma.

A mesma que abraças como talismã

contra a mágoa de inarráveis verbos.

 

Repassam à sombra do verão

paulatinamente

peixes de chumbo em cardumes,

[não te adormeça o olhar].


Procuram expandir a canibalesca 

sede de sangue. Sente-los?

Sentes o secular ódio que regurgitam?

Não te entorpeça a tristeza 

de os sentires assim próximos, sólidos,

sinistros.

 

Poderás voltar ainda às sílabas latejantes

que te amaciam os dedos da escrita?

Aos líquidos cânticos líricos

que se demoram, de ramo em ramo,

nos limoeiros?


II

 

Ou reterás outras paisagens que deslizam 

aquáticas 

para a tua intimidade,

a tomar uma a uma as divisões da casa?

O poema não suporta o abismo que o circunda.

Sem um pouco de claridade, sem o ar fresco 

de uma janela aberta para o quintal,

soçobra às portas da página nua.


Do poleiro do verso mais alto

do teu canto... só em surdina 

o sentido das coisas se denuncia

em  dolorosas minúcias.



Lídia Borges


(imagem s/ ind. de autoria)