segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Onde estás metida?

 


de: Histórias dos miúdos de ontem para os miúdos de hoje

Lembras-te? Eras tão pequena e a casa tão grande e estranha. O que mais te chamava a atenção era o sótão. As águas furtadas, aquela janelinha aberta no telhado por onde passavam a toda a hora asas de pombos, de rolas, de pardais. Um miradouro sobre o quintal, o poço, a horta, o pombal, as árvores de frutos, a figueira ao fundo, os ramos carregados de figos pingo de mel. Docinhos, docinhos...

Chamavam-te: – vem para baixo, menina. Onde estás metida? - Passavas pelo quarto escuro onde dormia a Rita (parecia mesmo uma avó, a Rita, lembras-te?), e a escada ficava à direita, no pequeno corredor. O soalho envernizado, o corrimão envernizado, a passadeira presa com pauzinhos, os vasos de avenca nos patamares, entre lanços de escadas. Paravas, a meio, olhavas para cima, para o teto de vidro que se abria em abóbada para o céu. Umas vezes muito azul, outras carregado de chuvas e ventos, outras ainda cheio de novelinhos de nuvens, animais que estavam sempre a transformar-se noutros e noutros e noutros animais. Lembras-te de quando te distraías e ficavas, esquecida, sentada num degrau, a olhar para o alto? Eu dizia que estavas a ver televisão. A televisão era uma novidade, novinha em folha, uma caixa com gente dentro que tinha chegado a casa, há pouquíssimo tempo. O senhor Antunes e a Tininha ligavam-na à noite para saberem as notícias. Ninguém mais lhe tocava. Lembras-te? 

Lembro-me: às vezes, o pai chegava e trazia beijos, abraços e umas pastas de chocolate fininhas que eu adorava. Lembro-me de chorar até ao fim das lágrimas quando ele ia embora, mesmo que prometesse voltar depressa. Aparecia então a Rosa ou a Rita ou a Tininha para me embalarem no colo. Lembro-me dos colos, do “não chores, menina”, sussurrado ao ouvido. 

 Lembro-me do cheirinho a sabonete que enchia a quarto de banho grande, da espuma como uma nuvem dentro da banheira. Lembro-me da caminha de colcha às florinhas e condizer com o cortinado e da boneca sentada na cadeira de baloiço, ao canto. E do Anjo da Guarda à cabeceira. A Rosa fazia-me repetir com ela, todas as noites, ao deitar: Anjo da Guarda, minha companhia, guardai minha alma, de noite e de dia. 

Era no primeiro andar o quarto onde eu ficava sozinha. Quando acordava, a meio da noite, saía da cama e subia a escada, devagarinho, à luz branda da lua ou das estrelas que vinham espreitar da clarabóia.  Ia então deitar-me na cama da Rita, junto dos cabelos brancos da Rita. A Rita que parecia mesmo uma avó, não só porque tinha os cabelos brancos, mas porque me abraçava e me deixava dormir amparada nos seus braços até de manhã.

 

Lembro-me: um dia, o pai chegou com uma fotografia e um embrulho – Toma, a mãezinha mandou isto para ti. Peguei na fotografia. A mãe estava recostada numa cama posta numa galeria envidraçada. O mar ao fundo coberto de neblina. Aquela senhora bonita, a sorrir, era a minha mãe. A minha mãe era aquela senhora bonita, a sorrir, mas estava presa num quadrado de papel, a preto e branco, e eu não lhe podia chegar. – Abre o presente. Foi a mãezinha quem o fez para ti.  

Era um cãozinho de feltro. Branco como um animal-nuvem, mas uma nuvem diferente das outras porque tinha sempre o mesmo formato. Era firme e macio e podia-se pegar nele, apertá-lo contra o peito. Tinha uns olhos bordados a linha azul e a boca era engraçada com uma pequena língua vermelha pendurada. O cãozinho-nuvem passou a dormir comigo, todas as noites. E, de quando em vez, falava-me muito baixinho sobre minha mãe. Um dia, contou-me que ela estava quase, quase a poder regressar. O que nunca consegui perceber bem foi se eu o escutava quando estava acordada ou quando dormia.

Lembras-te de quando a mãe voltou do sanatório?

 Lembro-me: eu já tinha crescido um bom bocado. Estavam todos sentados à volta da mesa da sala a conversar e a tomar chá com biscoitos e marmelada.  Eu, como um cãozinho de feltro macio, macio, debaixo da mesa, a tocar com os dedos as pernas da mãe. Ela a afastar a toalha, a inclinar a cabeça, a rir para mim. - Anda cá.

A mãe tinha conseguido fugir do retrato a branco e preto e viera buscar-me.


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Lídia Borges, uma das cinco pequenas histórias de -  Histórias dos miúdos de ontem para os miúdos de hoje. Inédito.