I
Quantos poemas terão sido
escritos
nas mesas antigas deste café
antigo?
Poemas que desnudaram a cidade.
Poemas de amor e saudade, de desalento,
de tristeza, de alegria, de
segredos
deixados no vento.
Algum poeta terá grafado, quero crer,
a graça das raparigas, à saída dos liceus
e a aparição dos
rapazes, para as ver.
Terá até, esse poeta, repetido em versos seus
a estrofe sempre lida:
"sedentos de mundo e de
futuro,
estes que um dia saltarão o
muro."
II
Hoje, fidalga, a cidade. Toda
ela lenda,
relíquias, tesouros dourados,
hálito de igreja, paramentos
arqueológicos achados
de todas as Idades e
momentos.
Há os jovens que chegam,
para reinaugurar a vivacidade
das ruas adormecidas.
Há os jovens que vão (ou não),
depois da universidade
tão saudosos, tão doentes da partida.
III
Desta esplanada central
sente-se ainda, ebriático,
o aroma do café de saco. Sem igual.
Quem, no coração da urbe,
o toma, assim, em chávena
escaldada,
vê subirem à memória fluidos
de outra realidade, outra mirada.
Pacata e pouca.
A vida entre a paresia nas mãos,
e os pregos na voz, travessos
a revolutearem anseios vãos,
as rendas, os missais e os terços,
os costumes e tradições,
a lhaneza das gentes
e suas divinas consolações.
Os sonhos, pardais tolhidos,
sempre na mira das serpentes.
Acoitados, temerosos, contidos.
E, por vezes,
sob o olhar luzente da lua,
sombras de grades alongadas
estendidas à toa p'la rua.
***
Outro café?
Não, por agora. Obrigada!
Lídia Borges
