sábado, 26 de setembro de 2020

A Brasileira (Braga)


I

Quantos poemas terão sido escritos 

nas mesas antigas deste café antigo?

Poemas que desnudaram a cidade. 

Poemas de amor e saudadede desalento, 

de tristeza, de alegria, de segredos 

deixados no vento.

 

Algum poeta terá grafado, quero crer,

a graça das raparigas, à saída dos liceus

e a aparição dos rapazes, para as ver.

Terá até, esse poeta, repetido em versos seus

a estrofe sempre lida:

"sedentos de mundo e de futuro, 

estes que um dia saltarão o muro."

 

 

 II

Hoje, fidalga, a cidade. Toda ela lenda, 

relíquias, tesouros dourados,

hálito de igreja, paramentos

arqueológicos achados 

de todas as  Idades e momentos.



Há os jovens que chegam, 

para reinaugurar a vivacidade

das ruas adormecidas.

Há os jovens que vão (ou não),

depois da  universidade

tão saudosos, tão doentes da partida.

 

III

Desta esplanada central 

sente-se ainda, ebriático,

 o aroma do café de saco. Sem igual.

Quem, no coração da urbe,

 o toma, assim, em chávena escaldada,

vê subirem à memória fluidos

de outra realidade, outra mirada.

Pacata e pouca.



A vida entre a paresia nas mãos,

e os pregos na voz, travessos

a revolutearem anseios vãos,

as rendas, os missais e os terços,

os costumes e tradições, 

a lhaneza das gentes

e suas divinas consolações.

 

Os sonhos, pardais tolhidos,

sempre na mira das serpentes.

Acoitados, temerosos, contidos.

E, por vezes, 

sob o olhar luzente da lua,  

sombras de grades alongadas

estendidas à toa p'la rua. 

 

*** 

Outro café? 

Não, por agora. Obrigada!


Lídia Borges