quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Viver ao vivo

(imagem: pesquisa Google s/ ind. autoria)


Viver ao vivo

não é modo de vida para poetas.

A realidade é o que é – ouço dizer.

Por isso mesmo,

por ser o que é, impunemente,

é que a realidade é perigosa.

 

O que não seria de esperar

é que, além de perigosa

por ser  o que é, impunemente,

a realidade fosse igualmente perigosa

para o que não é.

 

Se nos deixamos desatentar,

oferecendo-lhe sentidos, créditos e bênçãos,

quando damos conta

já ela feriu gravemente o nosso 

que não é.

 

O que é o que não é – perguntam alguns

do meio da sua sólida objetividade.

É o vivido que floresce

pelo lado de dentro das paisagens,

dos espelhos, das imagens, dos reflexos

e das palavras que nos radiografam.

 

É o único modo de vida possível

quando não nos basta um ínfimo concreto

do vasto abstrato que nos habita.



Lídia Borges