sábado, 5 de setembro de 2020

A senhora Maria


de: Histórias dos miúdos de ontem para os miúdos de hoje

 

Tinham vindo ocupar a casinha branca no centro da aldeia. Em pouco tempo a habitação, que antes parecia adormecida, ganhou nova vida. A cerca e as portadas foram pintadas; as janelas, como olhos, abriam-se agora à luz do dia; o jardinzinho que não passava de um amontoado de arbustos secos e viçosas ervas daninhas, foi limpo e, em pouco tempo, as flores começaram a desabrochar, colorindo tudo, em redor da casa branca.

 

Ficou alegre a casa, igual à senhora Maria que viera habitá-la com a filha Alexandrina, uma jovem enfermeira. Ninguém sabia ao certo o nome da terra de onde tinham vindo, sabia-se apenas, porque se via e ouvia, que falavam de um modo diferente da gente de cá. Eram as mesmas palavras, as nossas, mas ditas de outra maneira, o que chamava a nossa atenção e nos deixava a curiosidade desperta. Um dia, quando já nos tínhamos aproximado o suficiente e a mãe até lhe encomendara um trabalho, a senhora Maria contou que se tinham mudado de lá, de muito longe, porque a menina Alexandrina tinha sido colocada no hospital de cá, onde ficava a trabalhar todo o dia e, às vezes, também de noite.

 

A senhora Maria era igual a uma daquelas velhinhas dos livros de histórias que íamos buscar à biblioteca itinerante, todos os meses. Andava sempre alegre e sorridente, fazia bolo caseiro que gostava de oferecer. Era uma idosa gordinha com os cabelos brancos presos num carrapicho muito redondo. Usava as saias um pouco acima dos tornozelos e, sobre elas, aventais às riscas com folhos sempre muito engomados. Era simpática e agradável para toda a gente e toda a gente gostava dela e das camisolas e casacos quentinhos de lã que ela fazia à mão por encomenda.

Quando a escola terminava, as crianças que, como eu, passavam na sua casa, no regresso das aulas, ficavam sempre algum tempo debruçadas na cerca do jardim a vê-la cuidar das plantas e a ouvi-la falar delas. Ouvi-la falar prendia a nossa atenção, não sei se pela forma de pronunciar as palavras se pelo que as palavras tinham por dentro. Sei que perto da senhora Maria o tempo corria sempre mais depressa do que desejávamos.

Ela explicava-nos demoradamente como se fazia para que as plantas crescessem saudáveis. Era preciso adubar a terra, arrancar as ervas daninhas, regá-las, mas com cuidado para não as "afogar". Havia umas que gostavam mais de água do que outras, umas queriam sol, outras sombra, mas todas gostavam de igual modo que se conversasse com elas.

 Por vezes, quando chovia ou fazia frio, a senhora Maria convidava-nos a entrar para a saleta. Era um espaço florido, não apenas pelos vasos nos parapeito da janela e em cima de plintos, dispostos nos cantos, como também pela camilha sobre a mesa no meio da sala, pelas almofadinhas e reposteiros, tudo feito do mesmo  tecido, cheio de flores e raminhos verdes. 

Ela sentava-se numa das cadeiras, a única que tinha braços, apoiava os cotovelos (para lhe não doerem as costas) e pegava no tricô. Fazia girar as agulhas  tão rapidamente que elas pareciam  bailarinas a dançar, alegremente. Transformavam o fio de lã do novelo, que pulava na cesta pousada no chão, em peças que dariam as camisolas e os casacos. A senhora Maria falava sempre num tom baixo e sereno: começa-se pelas costas, depois as frentes, as mangas, por último… Depois é preciso passar tudo a ferro e coser. Só depois disso feito se pode tricotar a gola, pregar os bolsos e os botões, se for caso disso – dizia ela. - Se quiseres podes aprender. Tenho aqui umas agulhas mais pequenas e uns restinhos de lã. Podes fazer um casaquinho para a tua boneca, queres? - Eu quis.

Foi assim que, naquele inverno, passei muitas tardes com a senhora Maria. Às vezes vinha mais uma ou outra menina e havia sempre mais uma fatia de bolo e uma história que ainda não fora contada. 

Eu gostava muito de a ouvir, gostava daquela maneira que ela tinha de tornar as palavras doces como fatias de bolo ou então cadenciadas como música tocada por anjos. E ela gostava de contar histórias. Sabia muitas, bonitas umas, misteriosas e encantadoras, outras. Um dia, curiosa, perguntei-lhe onde arranjava ela tantas histórias para contar…

Ela riu muito e pareceu-me a mim que os seus pequenos olhos azuis rodeados de rugas fundas riam também. - Tenho uma taleiga na despensa cheiinha delas - respondeu.

Uma taleiga... uma taleiga! Fui ao dicionário "perguntar o que era uma taleiga. Por muito tempo, fiquei a sonhar com a taleiga que havia na despensa da senhora Maria, cheia de histórias mas, embora quisesse fazê-lo, nunca tive coragem de lhe pedir que ma mostrasse.

Eram palavras como taleiga que aguçavam a minha curiosidade mesmo que eu não soubesse o que elas significavam ou talvez por isso mesmo me encantassem daquele modo. Fiquei a saber, pela senhora Maria da existência de palavras envergonhadas, palavras que não saem muito à rua, que guardam em si mistérios insondáveis e histórias de todas as cores e feitios. Por conhecer bem essas palavras e os seus mistérios é que a senhora Maria tirava da taleiga tudo o que era maravilhoso.

No fim daquele verão, quando regressámos a casa, depois das férias grandes na praia, recebemos a notícia mais triste que se possa imaginar. A senhora Maria tinha sido levada de ambulância para o hospital. O seu coração tinha parado, subitamente, interrompendo a mais bonita de todas as histórias: a que falava do amor de uma idosa por uma menina de tranças que não lhe largava as saias.

Durante algum tempo, quando voltava da escola, ainda parava junto à cancela da cerca pintada de branco, à espera de a ver, de ver o sorriso com que nos recebia e convidava a entrar quando chovia ou fazia frio.

A menina Alexandrina encontrou um noivo e acabou por ir embora dali. E a casinha branca, no centro da aldeia, voltou a fechar os olhos de portadas verdes, o jardim voltou a secar e o silêncio começou a  crescer do lado de dentro das paredes.

Por vezes, penso ainda na taleiga da senhora Maria (a taleiga que nunca vi) e gosto de imaginar. De quando em vez, consigo arrancar de dentro dela uma história para contar a quem quiser ouvi-la.

 

E resulta… basta acreditar!

 

(Lídia Borges, uma das cinco pequenas histórias de -  Histórias dos miúdos de ontem para os miúdos de hoje. Inédito.)

                                                                                                                                (pintura: Alexi Zaitsev)