domingo, 6 de setembro de 2020

Outrora

                         


                                                                                     Outrora é um lugar situado no centro do universo.

 Olga Tokarczuk, in Outrora e Outros Tempos

I

Em Outrora as portas

abrem todas para o lado do coração

e as janelas só dão para paisagens felizes.

 

II

A memória tem o hábito

de colecionar incompletudes

e assim dourar o ar de Outrora.

Da memória só coisas soltas

nos chegam.

Esboços difusos de uma imagem

de uma impressão de uma palavra

de um pensamento fragmentado.

  

III

Os dias em Outrora podem ter

a duração de uma lágrima,

de um riso largo.

Um ano pode ser a efemeridade

de um beijo

a macieza de um gesto,

a doçura de uma laranja

colhida na hora.

 

IV

Em Outrora as águas são límpidas

os ventos contidos, as margens seguras. 

Do rio dos desencantamentos

a memória não tem lembranças.

Sem as águas desses rios, de outros rios

seremos ainda pessoas naturais

de Outrora?

 

V 

À saída de Outrora

existe uma máquina sofisticadíssima.

Uma máquina de transformar olhares.

Ninguém sai do centro do universo

Sem passar pela máquina [de]formadora.

 

As paisagens de Outrora

são sempre felizes

como searas de trigo maduro

no solo inculto de Outrora.


Lídia Borges