Outrora é um lugar situado no centro do universo.
Olga Tokarczuk, in Outrora e Outros Tempos
I
Em Outrora as portas
abrem todas para o lado do
coração
e as janelas só dão para
paisagens felizes.
II
A memória tem o hábito
de colecionar incompletudes
e assim dourar o ar de
Outrora.
Da memória só coisas soltas
nos chegam.
Esboços difusos de uma
imagem
de uma impressão de uma palavra
de um pensamento fragmentado.
III
Os dias em Outrora podem ter
a duração de uma
lágrima,
de um riso
largo.
Um ano pode ser a efemeridade
de
um beijo
a macieza de um gesto,
a doçura de uma laranja
colhida na hora.
IV
Em Outrora as águas são
límpidas
os ventos contidos, as margens seguras.
Do rio dos desencantamentos
a memória não tem lembranças.
Sem as águas desses rios, de outros rios
seremos ainda pessoas
naturais
de Outrora?
V
À saída de Outrora
existe uma máquina
sofisticadíssima.
Uma máquina de transformar
olhares.
Ninguém sai do centro do
universo
Sem passar pela máquina [de]formadora.
As paisagens de Outrora
são sempre felizes
como searas de trigo maduro
no solo inculto de Outrora.
Lídia Borges
