Poemas poliédricos,
aguçadas arestas, faces
turbadas
vértices de
desencontros.
Eu que sempre os quis
redondos (aos poemas)
começo a embirrar seriamente
com os degraus
oscilantes
que pendem de cada um dos versos
em que mergulho as mãos.
Chega-se da infância da
linguagem,
os olhos lavados pelos
sonhos
carregados ainda de
astros e brilhos
e abruptamente dá-se
de caras
com o grito estridente de uma ambulância louca
a atropelar estrofes, a perfurar os ouvidos do mundo
a ditar as horas e os dias dos passos
que não havemos de dar.
O embate no solo, inevitável.
Eu que sempre os quis redondos, (aos poemas),
Não sei como lidar agora com
tanta palavra achatada.
Estou cansada. O sono
das árvores no outono
vem rondar-me o pensamento como uma brisa.
E não reproduzo as linhas que folhas e pássaros
me escrevem, por dentro. Mas leio-as e sou quase feliz
em cada poema que não escrevo.
Lídia Borges
Imagem: (João Matias, [meu neto] Fredrikstad, Noruega, outubro, 2020).
