quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Como uma brisa



Poemas poliédricos, 

aguçadas arestas, faces turbadas 

vértices de desencontros.

Eu que sempre os quis redondos (aos poemas)

começo a embirrar seriamente

com os degraus oscilantes

que pendem de cada um dos  versos

em que mergulho as mãos.

 

Chega-se da infância da linguagem,

os olhos lavados pelos sonhos

carregados ainda de astros e brilhos

e abruptamente dá-se de caras

com o grito estridente de uma ambulância louca

a atropelar estrofesa perfurar os ouvidos do mundo

a ditar as horas e os dias dos passos 

que não havemos de dar.

O embate no solo,  inevitável

 

Eu que sempre os quis redondos, (aos poemas),

Não sei como lidar agora com tanta palavra achatada.

Estou cansada. O sono das árvores no outono

vem rondar-me o pensamento como uma brisa.

E não reproduzo as linhas que folhas e pássaros 

me escrevem, por dentro. Mas leio-as e sou quase feliz 

em cada poema  que não escrevo.

 

Lídia Borges

Imagem: (João Matias, [meu neto] Fredrikstad, Noruega, outubro, 2020).