A esta hora de fim de tarde
o céu pousado nos telhados
exibe uma barra cinzenta e pesada.
É como um fumo em sinal de
luto
na manga de um casaco anónimo
que passa, ausente,
numa travessa da imaginação.
Há agora no mesmo céu
uma tonalidade âmbar, inflamada
como uma tocha incandescente.
Perfura a sombra,
parece querer adiar a noite,
mas as árvores, no outro lado do vidro,
já se fecham na soturnidade dos verdes velhos,
cansados.
Recolho do parapeito da janela
as tigelas
de marmelada
que uns franzinos raios de
sol
todo o dia procuraram provar.
Reparo no movimento dos
melros
em torno da figueira sonolenta,
sombras chinesas em voos espavoridos,
chilreios ansiosos. Ou
protesto afincado, apenas?
Um forte prenúncio de chuva
atinge-me a alma.
E este coração mostra hoje
um modo tão novo de sofrer.
Lídia Borges
(imagem:Gawlik_Fonar)
