domingo, 4 de outubro de 2020

Sombras Chinesas

                                                                                                                                 

A esta hora de fim de tarde

o céu pousado nos telhados

exibe uma barra cinzenta e pesada.  

É como um fumo em sinal de luto

na manga de um casaco anónimo

que passa, ausente,

numa travessa da imaginação.

 

Há agora no mesmo céu

uma tonalidade âmbar, inflamada

como uma tocha incandescente.

Perfura a sombra,

parece querer adiar a noite,

mas as árvores, no outro lado do vidro,

já se fecham na soturnidade dos verdes velhos,

cansados.

 

Recolho do parapeito da janela

as tigelas de marmelada

que uns franzinos raios de sol

todo o dia procuraram provar.

Reparo no movimento dos melros

em torno da figueira sonolenta,

sombras chinesas em voos espavoridos, 

chilreios ansiosos. Ou 

protesto afincado, apenas?


 

Um forte prenúncio de chuva

atinge-me a alma. 

E este coração mostra hoje

um modo tão novo de sofrer.


Lídia Borges

(imagem:Gawlik_Fonar)