sexta-feira, 9 de outubro de 2020

São como bailarinos os versos

                                                                                                                        Imagem: Blue Life Centro de Buceo


Cada vez mais,

mais demorado o mergulho

ao centro do universo da fala

subaquática,

mais profundas as águas

mais intensos os brilhos

de excessivas florestas

perenes de claridade.


Cada vez mais inteligível o respirar

no irrespirável

destes alfabetos submersos.

Cada vez mais distante o retorno,

mais e mais longo o efeito do feitiço.

A demora nem cerco nem espera.


São como bailarinos os versos,

harmoniosos, sem ensaios nem enredos.

Graciosos adágios,

cabrioles, chainés, Changements 

e, quanto atingida a forma plena,

admirá-los apenas. Sobre tudo, amá-los.


Desvenerada a rede, o arpão,

a caça, a caneta e seus inábeis modos

de imobilizar em poemas

o que é vivo e pulsa e move-se 

e cintila.


Lídia Borges