sábado, 30 de abril de 2022

Óculos

 

(imagem: pesquisa s/ ind. autoria)

Perdeste os óculos

sem que tivessem saído do seu lugar.

Tão longe deles ficaste, como de ti.


Perdeste os óculos, de propósito, bem sei!

Não fosse essa evidência

e poderias sentar-te comodamente 

aí na margem da estrofe, sob o salgueiro,

em vez de embicares na letra miudinha

de um punhado de versos

cuja sina é esvaziar o eco do que ouves.


 

Eu sei que bastaria um banco de pedra

[na margem desta estrofe, sob o salgueiro]

para que isto fosse o poema de amor

onde me esperas.

 

Já ninguém escreve poemas de amor - lembras-te? -

não por serem ridículos, mas dispensáveis.

Além disso, estão cheios de ervas daninhas

os poemas que amei. Os de amor, sobretudo. 

 

Todavia, é romântica a noite de onde te escrevo.

Sobre o meu desejo paira um quê da tua presença,

um arrebatador aroma de glicínias,

a enlouquecer a antecâmara da palavra.


Onde terei deixado os óculos?

 


Lídia Borges