Perdeste os óculos
sem que tivessem saído do seu lugar.
Tão longe deles ficaste, como de ti.
Perdeste os óculos, de propósito, bem sei!
Não fosse essa evidência
e poderias sentar-te comodamente
aí na margem da estrofe, sob o salgueiro,
em vez de embicares na letra miudinha
de um punhado de versos
cuja sina é esvaziar o eco do que ouves.
Eu sei que bastaria um banco de pedra
[na margem desta estrofe, sob o salgueiro]
para que isto fosse o poema de amor
onde me esperas.
Já ninguém escreve poemas de amor - lembras-te? -
não por serem ridículos, mas dispensáveis.
Além disso, estão cheios de ervas daninhas
os poemas que amei. Os de amor, sobretudo.
Todavia, é romântica a noite de onde te
escrevo.
Sobre o meu desejo paira um quê da tua
presença,
um arrebatador aroma de glicínias,
a enlouquecer a antecâmara da palavra.
Onde terei deixado os óculos?
Lídia Borges
