A Poesia
disse - cala-te - quando eu buscava algumas palavras soltas. Disse - cala-te. E o tom categórico desse cala-te estampou-se, firme, nas paredes, devolvendo-me
aos lençóis brancos do silêncio.
Não
fecho os olhos, porém. Gosto de observar as transmutações da escuridão projetadas em redor, depois de perdas irremediáveis.
São
formas imprevisíveis em constante movimento, como nuvens-animais: lagartos, elefantes,
felinos, ratos, símios, aves, estorninhos em bandos ondulantes, manchas cinzentas como se a
escureza fosse o meio único de tatear a vida pela linguagem. Manchas que se desfazem
e refazem nas retinas afetadas de uma mulher desconhecida que veio alojar-se num corpo que não
é, não pode ser, o meu. Quem és tu e que fazes aqui, tão carregada de chuvas?
Algumas
luzes cor-de-laranja, azuis, verdes, acendem-se e apagam-se no cento do caos.
São palavras que reconheço de um poema antigo - ser... mendigo... dar... como quem seja... dor...
Cala-te – repetiu
a Poesia.
Lídia Borges
(imagem: Google s/ ind. autoria)
