
Do 25 ou 26, 27 de abril...não sei bem (em 1974 não havia as estradas para a Comunicação de que hoje dispomos e eu sou do Minho, longe, portanto, da Lisboa de todos os palcos), lembro-me de ter saído da escola, para a rua, em grupo. Eu, sem certezas ainda de que o cravo vermelho era completamente nascido, temia o que iria passar-se, quando descobrissem que a turma tinha arrancado da parede as fotografias de Marcelo Caetano e Américo Tomás.
A Hermínia, que era a rapariga mais alta da turma, subira a cadeira posta em cima da secretária e depusera a dupla vigilante que ladeava o crucifixo, ao centro da parede frontal, na sala de aulas. Foi difícil fazer com que as molduras entrassem no cesto do lixo, pequeno de mais para tanto volume. Alguém as partiu. Houve palmas e vivas, num cenário de desmando nunca visto que não necessitava, sequer, de motivos claramente expressos para se derramar em risos, gritos de júbilo e abraços múltiplos. Éramos tão novas! Poucas de nós teriam, no momento, uma percepção cabal do que estava a acontecer nem a noção das mudanças que haveriam de ocorrer, a partir dali, no nosso Portugal obscuro e triste.
O jardim de Santa Bárbara era o lugar de encontro nos "feriados" (faltas dadas pelos professores) e nesse dia tivemos muitos "feriados". Tudo acontecia nas ruas, havia uma grande euforia solta no ar e algumas nuvens ainda a rondá-la. Sentada com amigos no muro do jardim, ouvíamos o "Grândola, Vila Morena" e sentíamos que alguma coisa extraordinária havia na natureza daquele canto estranhamente belo que falava de Igualdade, de Liberdade, de Fraternidade. Eram vozes saídas dos megafones do carro que passava em marcha lenta. Alguém, de entre nós, perguntava se o que ouvíamos era um cântico religioso. Se o era, porque nunca tinha sido cantado na sua igreja? Ninguém achou graça e eu penso que não era uma graça. Era ignorância, mesmo. Não obstante o divino do canto, a "inocência” rangia no interior da maioria das mentes, não apenas dos mais novos, como nós (que ainda podíamos estudar) submetidos aos ditames de uma Escola refém da ideologia vigente e de um Estado opressivo e controlador, mas, também do povo, um povo sem quereres nem saberes, na sua maioria, obediente, analfabeto e pobre, lutando, de sol a sol, apenas pelo pão para a boca dos filhos, tal como convém aos regimes déspotas e totalitários.
Mas, aquela, era a hora de renascer e já nada poderia parar a Alegria que corria nas ruas, espalhando um indescritível e reconfortante sentimento de união, de partilha e esperança na caminhada para a tão desejada Liberdade.
Não me lembro bem do nome da rapariga franzina e pálida (Zulmira?) que tinha lágrimas nos olhos e uma expressão que bailava entre a alegria, sem explicação plausível, e o medo, concreto, que a tomara. Acabou por contar que tinha o irmão na Polícia Militar, em Lisboa, e notícias dele… tardavam.
Para que não se esfume a memória.
***
A Democracia tem falhas? Sim. É sempre possível aperfeiçoá-la.
A Ditadura não falha: oprime, estrangula, escraviza!
Lídia Borges
(reescrito)
(imagem: Vieira da Silva)