I
ELA
ficava à janela.
Seguia aquele barco que subia o
rio
paulatinamente
do coração para o cérebro.
Todos os rios sobem
olhados de certas latitudes.
Quando interceptado pela lira
o barco, lá muito ao longe, deixava ver
um braço levantado a acenar
efusivamente.
Ela deixava que um sorriso caísse
no meio das roseiras que debruavam a janela.
II
ELE
Tinha por hábito seguir aquele barco
que descia o rio
paulatinamente
do cérebro para o coração.
Todos os rios descem
olhados de certas longitudes.
Por vezes, parecia-lhe distinguir à janela,
lá muito ao longe, uma figura esquisita
a quem dava um rosto, um sorriso
e, julgando-se a coberto dos vapores frios
vindos da água, acenava-lhe
efusivamente.
Era um rendez-vous fugaz, ali,
entre o coração e o cérebro.
Enquanto ela abreviava a poesia
em busca da razão,
ele abreviava a razão
em busca da poesia.
Nenhum dos dois tinha projetos.
Só livros.
Lídia Borges
