segunda-feira, 30 de maio de 2022

Linhas imaginárias

 (pintura: Anne Packard)

I

ELA

ficava à janela.

Seguia aquele barco que subia o rio

paulatinamente

do coração para o cérebro.

 

Todos os rios sobem

olhados de certas latitudes.

 

Quando interceptado pela lira

o barco, lá muito ao longe, deixava ver

um braço levantado a acenar

efusivamente.

 

Ela deixava que um sorriso caísse

no meio das roseiras que debruavam a janela.

 

II

ELE

Tinha por hábito seguir aquele barco

que descia o rio

paulatinamente

do cérebro para o coração.

 

Todos os rios descem

olhados de certas longitudes.

 

Por vezes, parecia-lhe distinguir à janela,

lá muito ao longe, uma figura esquisita

a quem dava um rosto, um sorriso

e, julgando-se a coberto dos vapores frios

vindos da água, acenava-lhe

efusivamente.

 

III

Era um rendez-vous fugaz, ali,

entre o coração e o cérebro.

Enquanto ela abreviava a poesia

em busca da razão,

ele abreviava a razão 

em busca da poesia.

 

IV

Nenhum dos dois tinha projetos.

Só livros.


Lídia Borges