Berna,
31 [de] outubro [de] 1946
Alô, Lúcio,
isto é apenas pra perguntar como você vai.
O quê? ah, estou bem, obrigada.
Sim, com frio também, obrigada.
O quê? ah, sim, mesmo no outono já se tem um grau abaixo de zero.
Que eu vou morrer de frio? Ah, sim, você talvez tenha razão. Que
você tem me escrito muito? sim, recebo sempre suas cartas; até ia lhe dizer que
não me escrevesse tanto porque você pode se cansar. O quê? que você fez isso
por amizade? é claro, foi o que pensei. Que você me mandou seus livros?
realmente, todos os dias recebo um. Se eu li seu poema “Miradouro”? sim, li
e gostei tanto, tanto. O quê? desculpe, não estou mais ouvindo, a distância é
grande, minha “aura” está acabando e o esforço desta comunicação é tão
sobre-humano que mal tenho força de assinar
Clarice
In: Clarice Lispector, a hora da estrela, (2013: 58/59), Fundação Calouste Gulbenkian.
