terça-feira, 14 de junho de 2022

Cartaz de viagens

 

Se era risonha a ideia de uns dias de férias, fora da rota habitual, em tempo de pandemia, Porto-Oslo / Oslo-Porto? Era. Se deixar por uns dias à solta as palavras de sempre, podia ser libertador? Podia. Se voltar à Pérola do Atlântico, depois de tantos anos, podia ser revigorante? Podia.

 

E foi. Deambular pela ilha que, desta vez, me pareceu menos pérola, e mais concha, com gente a romper de todas as esquinas, filas por todos os lados, a poncha explicada, tim-tim por tim-tim na mercearia por uma madeirense, querendo ajudar o vendedor, ao ver o nosso interesse em comprar. Não se fez rogada a senhora e tratou de nos dar a receita toda, mostrando nas pequenas prateleiras a aguardente de cana, o mel, limão ou maracujá e tudo o mais necessário à confeção da afamada bebida. Vender a poncha era pouco. Tínhamos de trazer também o "costume”. No final, quis saber de onde éramos - De Braga? Credo, senhores, como fazem para se aquecerem no inverno, sem a poncha? - Bebemos o "verde".

No carro, a caminho da Ponta do Sol, onde fizemos um joguinho da malha, convidados por patelas muito lisas e ovaladas no lugar da areia, lá fomos, lançando a voz, recordando Max, recuperando aos poucos a lhaneza das letras:

Casei c’uma velha

Da ponta do sol

Deitei-a na cama e o raio da velha rasgou-me o lençol

Tornei-a a deitar

Tornou a rasgar

Perdi a cabeça e atirei co’a velha de pernas p’ró ar.”






Se foi bom assistir ao nascer do sol? Sim. E ver os picos acima do nevoeiro? Sim. E o arco-íris lá em baixo, no Curral das Freiras? Sim.

Se reservei lugar, no regresso, para o Sars Cov 2? Não. Mas ele veio. E cá está, vingativo, a dar-me cabo das (boas) memórias.



(Fotos minhas)