Se era
risonha a ideia de uns dias de férias, fora da rota habitual, em tempo de pandemia, Porto-Oslo / Oslo-Porto? Era. Se deixar por uns dias à solta as palavras de sempre, podia ser libertador? Podia.
Se voltar à Pérola do Atlântico, depois de tantos anos, podia ser revigorante?
Podia.
E foi.
Deambular pela ilha que, desta vez, me pareceu menos pérola, e mais concha, com
gente a romper de todas as esquinas, filas por todos os lados, a poncha
explicada, tim-tim por tim-tim na mercearia por uma madeirense, querendo ajudar
o vendedor, ao ver o nosso interesse em comprar. Não se fez rogada a senhora e tratou de
nos dar a receita toda, mostrando nas pequenas prateleiras a aguardente de
cana, o mel, limão ou maracujá e tudo o mais necessário à confeção da afamada
bebida. Vender a poncha era pouco. Tínhamos de trazer também o "costume”. No
final, quis saber de onde éramos - De Braga? Credo, senhores, como fazem para
se aquecerem no inverno, sem a poncha? - Bebemos o "verde".
No
carro, a caminho da Ponta do Sol, onde fizemos um joguinho da malha, convidados
por patelas muito lisas e ovaladas no lugar da areia, lá fomos, lançando a voz,
recordando Max, recuperando aos poucos a lhaneza das letras:
Casei
c’uma velha
Deitei-a
na cama e o raio da velha rasgou-me o lençol
Tornei-a
a deitar
Tornou
a rasgar
Perdi a cabeça e atirei co’a velha de pernas p’ró ar.”
Se foi bom assistir ao nascer do sol? Sim. E ver os picos acima do nevoeiro?
Sim. E o arco-íris lá em baixo, no Curral das Freiras? Sim.
Se reservei lugar, no regresso, para o Sars Cov 2? Não. Mas ele veio. E cá está, vingativo, a dar-me cabo das (boas) memórias.
(Fotos minhas)



