domingo, 26 de junho de 2022

Elas (II)

 


Elas vieram devagar,

um braço que se alonga, outro,

uma mão de dedos finos, vegetais.

Abeiraram-se das janelas

abusivamente

[se um advérbio me é consentido].

 

Tão perto ficaram que é possível

captar-lhes o ritmo da respiração

mesmo com os vidros fechados.

 

Deliram.

Exibem gorjeios com impudicas vaidades 

A magnólia, a figueira, a ameixoeira?

Qual a preferida

dos pássaros que gorjeiam?

 

As árvores deliram.

Elas mantêm o sol preso

no rendilhado da folhagem.

Elas são as cortinas verde sombra

das minhas janelas de verão.

 

Como é óbvio não possuo

de momento

nenhuma ideia luminosa

sobre o mundo.

***


Lídia Borges

(imagem-Pinterest, s/ ind. autoria)