sábado, 18 de junho de 2022

Violetas




À noite, 
corre mais veloz o medo

de não poder continuar a morrer

rente ao abismo

seguindo o rumo da corrente sem bracejar.

 

E tu estás aí, bem sei, e eu vejo-te enorme

como um plátano, uma ave,

uma montanha.

Pergunto-me porque estarás aí

se salvar-te a ti mesmo ou salvar-me 

não é sequer um propósito.


Porém, acendeste-me do lado esquerdo

um astro ignorado, em tudo esplendor.

 E desamor. Do lado direito

nenhum deus que me visse 

e me avisasse que o bem, se é bem, 

bem pouco dura. 

Dos deuses já nada há a invejar.


Como tal, ocupo lugares vazios:

alongo as pernas até que os tendões doam,

amplio os braçossolto os leões do coração,

falo alto.  

Fico maior do que sou e agito no ar

a febre súbita das violetas.

 

As violetas!

Por vezes um canto divino soa do meio delas.

Outras vezes - não!


 

Lídia Borges