À noite, corre mais veloz o medo
de
não poder continuar a morrer
rente ao abismo
seguindo o rumo da corrente sem bracejar.
E tu estás aí, bem sei, e eu vejo-te enorme
como
um plátano, uma ave,
uma
montanha.
Pergunto-me
porque estarás aí
se salvar-te a ti mesmo ou
não é sequer um propósito.
Porém, acendeste-me
do lado esquerdo
um astro ignorado, em tudo esplendor.
E desamor. Do lado direito
nenhum deus que me visse
e me avisasse que o bem, se é bem,
bem pouco dura.
Dos deuses já nada há a invejar.
Como tal, ocupo lugares vazios:
alongo as pernas até que os tendões doam,
amplio os braços, solto os leões do coração,
falo
alto.
Fico
maior do que sou e agito no ar
a febre súbita das violetas.
As violetas!
Por vezes um canto divino soa do meio delas.
Outras
vezes - não!
Lídia
Borges
