domingo, 10 de julho de 2022

Lá fora

 


E de repente o som do estore descendo, 
a claustrofobia das coisas mudas que derivam pela casa
e eu a duplicar gestos que me são exteriores de tão quotidianos.

A invisibilidade dos móveis que sempre ali estiveram
Os ruídos que, por soarem iguais tantas vezes,

se tornaram inaudíveis

a televisão a debitar banalidades,

costumeira e inútil até ao esvaziamento dos sentidos.
O hábito de não ver, de não entrar em certos trechos estéreis,
as portadas cerradas a cortarem às tiras os fervores do verão

Tenho os olhos marejados dessa sequidão abrasiva, lá fora

a tentar sonegar-me da memória as palavras primeiras 

que ainda sei.


Lídia Borges