E de repente o som do estore
descendo,
a claustrofobia das coisas mudas que derivam pela casa
e eu a duplicar gestos que me são exteriores de tão quotidianos.
A invisibilidade dos móveis que sempre ali estiveram
Os ruídos que, por soarem iguais tantas vezes,
se tornaram inaudíveis
a televisão a debitar banalidades,
costumeira e inútil até ao esvaziamento
dos sentidos.
O hábito de não ver, de não entrar em certos trechos estéreis,
as portadas cerradas a cortarem às tiras os fervores do verão
Tenho os olhos marejados dessa sequidão
abrasiva, lá fora
a tentar sonegar-me da memória as palavras primeiras
que ainda sei.
Lídia Borges
