Ouvi atentamente a última entrevista, dada
por Ana Luísa Amaral a Vítor Gonçalves, que passou recentemente na
Rtp3. Quase tão atentamente como sempre lhe li os versos. A notícia da sua
morte, deixou-me com uma tremenda sensação de perda e de tristeza, como
a muitos outros leitores de poesia, com certeza.
Na referida entrevista, a dado momento, a poeta enfatiza o amor pela Língua Portuguesa e alude, a título de exemplo, ao facto de não ser capaz de escrever numa simples mensagem, “bjs”, porque “beijos” é a palavra certa, a palavra que designa por inteiro o “objecto” nomeado. Compreendi o sentido que quis dar à afirmação e fiquei até um pouco envergonhada porque, também eu, mesmo amando a minha Língua, a Língua em que me reconheço e vivo, em que reconheço o mundo que me rodeia, escrevo tantas vezes, “bjs”, em comentários e SMS(s). Se o meu neto (criança pequena) ouvisse esta declaração de culpa, decerto reagiria com um “calamba” que é como ele diz “caramba”, palavra que descobriu nas últimas férias, em Portugal, e o seduziu, inequivocamente.
Depois de ter dormido sobre o assunto, cheguei à conclusão de que, mesmo respeitando a Língua Portuguesa, pode escrever-se “bjs” num SMS. Afinal um beijo escrito, em texto curto, a correr, é isso mesmo - uma abreviatura sem sabor, sem conexão nem elevação. Um pouco mais, um pouco menos do que um emoji com um coraçãozinho vermelho a saltar-lhe da boca.
Vem a propósito, ou não (analise quem lê),
salientar aqui a crónica assinada pelo Valter Hugo Mãe, em homenagem a Ana Luísa
Amaral publicada, entre outros textos, dedicados à autora, no JL Artes e Ideias
n.º 1353 (10 a 23 de agosto). Faço-o com apreço e mesura por constatar que o
escritor nortenho é o único a rejeitar o “ALA”, desajustado e, se formos
exigentes, até deselegante, para nomear a poeta, que acaba de nos deixar.
Regras comuns no “meio” em presença - dir-me-ão. E eu contraponho - Ana Luísa
Amaral (que não abreviava nem “beijos” numa SMS) merecia a exceção, o incomum.
É que, neste caso, neste contexto, a abreviatura soa mal, abrevia de mais, quando engrandecer seria o esperado, o natural. E é, felizmente. Porém seria mais ainda sem o “ALA” que tanto pode ser uma fileira, uma énula-campana, uma asa, uma interjeição para afastar ou mandar embora, entre outras designações que, intrusas e indesejadas, nos sobem aos olhos. Destemperanças de uma Língua ou tão-só distorção involuntária do olhar?
Lídia Borges
(Imagem: Jonathan wolstenholme)
