sábado, 27 de agosto de 2022

Cristal

 


De cada vez que me imponho uma pausa nas escritas, torna-se mais penoso o retorno à página em branco. E o "abrigo" passa a ser  a vida e não a ilha (selvagem) onde se digladiam ferozmente vozes e vaidades, como se invertida a ordem natural das coisas. Por sua vez, a vida sem poesia não passa de uma ilha... selvagem, por vezes. 

E com tudo isto, deixa de haver lugares apropriados para pessoas "amenas", como eu. 

***

Começo a ter sérias dúvidas quanto àquilo a que devo chamar "poema". Será que é findo o tempo dos poemas? Que, como para as flores ou para a queda das folhas, há uma estação para as palavras de Verdade?


VIDA

I

O poema vem com as névoas, antes do sol romper.

Quando é excessiva, a luz ofusca.

O poema vem escavando um solo gasoso

de nuvens, poeiras secas, sombras.

 

Passos tímidos tateiam a inseguridade do piso

refugiam-se depois entre a dor e a dormência,

entre o fogo e a cinza 

Há um rio límpido que se esbate

mais estreito, mais débil a cada dia que passa.

 

As raízes do ser por teias trespassadas 

oprimem respirações 

e mil afluentes

pairam sobre imagens desfiguradas.

 

À proa dos sentidos, submersas,

brilham luminosidades, clarezas fugazes.

Impersistente cristal que ameaça estilhaçar-se

nas largas abas do silêncio.


[...]


Lídia Borges - (imagem e texto)