De cada vez que me imponho uma pausa nas escritas, torna-se mais penoso o retorno à página em branco. E o "abrigo" passa a ser a vida e não a ilha (selvagem) onde se digladiam ferozmente vozes e vaidades, como se invertida a ordem natural das coisas. Por sua vez, a vida sem poesia não passa de uma ilha... selvagem, por vezes.
E com tudo isto, deixa de haver lugares apropriados para pessoas "amenas", como eu.
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Começo a ter sérias dúvidas quanto àquilo a que devo chamar "poema". Será que é findo o tempo dos poemas? Que, como para as flores ou para a queda das folhas, há uma estação para as palavras de Verdade?
VIDA
I
O poema vem com as névoas, antes do
sol romper.
Quando é excessiva, a luz ofusca.
O poema vem escavando um solo gasoso
de nuvens, poeiras secas, sombras.
Passos tímidos tateiam a
inseguridade do piso
refugiam-se depois entre a dor e a
dormência,
entre o fogo e a cinza
Há um rio límpido que
se esbate
mais estreito, mais débil a cada dia
que passa.
As raízes do ser por teias trespassadas
oprimem respirações
e mil afluentes
pairam sobre imagens desfiguradas.
À proa dos sentidos, submersas,
brilham luminosidades, clarezas fugazes.
Impersistente cristal que ameaça estilhaçar-se
nas largas abas do silêncio.
[...]
Lídia Borges - (imagem e texto)
