A uma casa e um
quintal,
em Merelim
Umas águas furtadas
um telhado de gatos e pombos
a irisar os dias.
Uma ausência tão quieta
que a esta distância mal se nota
mal se sente, cavando
discretamente
como se dela, a alma,
consciência alguma tivesse.
Um jardim de buxo verde,
figuras geométricas e lírios.
Uma horta na memoria
a cristalizar formas e cores,
a beber-te o olhar, de tão longe.
No princípio da noite, os cães a ladrar,
o linho, a lã, o leito,
a saudade sem nome tinha ainda
os barcos
carregados de nomes próprios
e verbos úteis e inabaláveis.
O desprezo pelo decalque
das letras sem exaltação, lava ou lume.
Os véus de fuligem
que o tempo vem sacudindo, revelando
Umas águas furtadas
Um telhado de gatos e pombos.
E tu? Cedo demais para tão iníqua espera.
Não te parece?
Lídia Borges
