sexta-feira, 14 de julho de 2023

Escavações

 



A uma casa e um quintal, 

em Merelim










 


Umas águas furtadas

um telhado de gatos e pombos

a irisar os dias.

Uma ausência tão quieta

que a esta distância mal se nota 

mal se sente, cavando

discretamente

como se dela, a alma,

consciência alguma tivesse.

 

Um jardim de buxo verde, 

figuras geométricas e lírios.

Uma horta na memoria

a cristalizar formas e cores,

a beber-te o olhar, de tão longe.

 

No princípio da noite, os cães a ladrar,

o linho, a lã, o leito, 

a saudade sem nome tinha ainda

os barcos

carregados de nomes próprios

e verbos úteis e inabaláveis.

 

O desprezo pelo decalque

das letras sem exaltação, lava ou lume.

Os véus de fuligem 

que o tempo vem sacudindo, revelando

Umas águas furtadas

Um telhado de gatos e pombos.

 

E tu? Cedo demais para tão iníqua espera. 

Não te parece?



Lídia Borges